Menor taxa da série histórica esconde escassez de mão de obra qualificada; retenção e desenvolvimento passam a ser prioridade estratégica no próximo ano
O Brasil encerra 2025 com taxa de desemprego de 5,2%, segundo dados da PNAD Contínua, do IBGE — o menor índice já registrado pela série histórica. Do ponto de vista macroeconômico, o cenário é classificado como pleno emprego. No entanto, especialistas alertam que esse número esconde um desafio estrutural que deve se intensificar em 2026: a falta de profissionais qualificados em áreas estratégicas da economia.
“A fotografia macro mostra um país com vagas. O raio-X interno revela algo diferente: falta gente qualificada. É uma crise de competência”, avalia Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, PhD pela Unicamp e gestor de carreiras.
As projeções setoriais reforçam esse movimento. Estimativa do Sinduscon-SP aponta crescimento de 2,7% na construção civil, enquanto setores como infraestrutura, energia, logística e agronegócio devem puxar a expansão econômica nos próximos anos. “É onde estão as vacâncias reais: engenheiro civil, mestre de obras, eletrotécnico, técnico de automação. Com o ajuste das techs e do mercado financeiro, o eixo volta ao Brasil que produz: quem executa”, explica Santos.
O aumento da renda média, hoje acima de R$ 3.500, também altera a dinâmica entre empresas e profissionais. “Em 2023, a empresa escolhia o profissional. Em 2026, o profissional escolhe a empresa — mas isso eleva a régua de entrega. O mercado procura o engenheiro que entende finanças, o gestor que domina dados. O especialista de nota única perde espaço para o generalista estratégico”, afirma.
Para o especialista, a principal mudança nas organizações será a necessidade de reter talentos. Substituir um profissional pode custar entre nove e doze salários, considerando desligamento, nova contratação e perda de produtividade. É nesse contexto que ele introduz o conceito de “engenharia de gente”.
“Antes, engenharia era sobre máquina e processo. Agora, é sobre pessoas. O que chamamos de engenharia de gente nada mais é do que desenhar ambiente, incentivos e oportunidades para que alguém permaneça. Treinar técnica é possível; manter quem tem autonomia, comunicação, adaptabilidade e pensamento crítico é a parte difícil”, afirma. “É melhor ter cinco bons técnicos que aprendem rápido do que dez que você perde em seis meses.”
Na prática, isso exige mudanças no recrutamento e na gestão de pessoas. “É hora de abandonar a busca pelo currículo perfeito e contratar por perfil, complementando lacunas técnicas depois. E criar condições para que as pessoas não atravessem a rua por R$ 500 a mais”, reforça.
Para os profissionais, o cenário representa uma janela de oportunidade. “É o momento de negociar carreira, aumento ou mobilidade — sustentado por entrega real. Multidisciplinaridade em dados, finanças e gestão pode virar diferencial. E observar setores aquecidos, como infraestrutura, energia, agro e chão de fábrica, pode reorientar trajetórias para 2026”, conclui Santos.

