Por Soraia Pena

O debate sobre o fim da escala 6×1 costuma partir de uma pergunta imediata: quanto isso vai custar para as empresas? A questão é legítima, especialmente em setores que dependem de presença contínua, como comércio, serviços, alimentação, saúde e atendimento ao público. Mas a discussão precisa ir além do custo trabalhista.

A redução da jornada deve ser compreendida como uma reorganização estrutural do trabalho. O ponto central não é apenas trabalhar menos, mas trabalhar melhor, com mais planejamento, menos exaustão e maior capacidade de entrega.

Ao contrário do que muitos imaginam, o fim da escala 6×1 não tende, necessariamente, a produzir impacto inflacionário estrutural. Pode haver ajustes no curto prazo, sobretudo em empresas que precisarão reorganizar escalas, contratar equipes ou rever processos. No médio prazo, porém, a redução da exaustão pode favorecer produtividade, engajamento, retenção de talentos e queda de custos associados ao adoecimento, ao absenteísmo e à rotatividade.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que jornadas reduzidas e arranjos mais flexíveis podem beneficiar economias, empresas e trabalhadores, com melhora de produtividade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional. O relatório também destaca que jornadas mais longas estão associadas a menor produtividade por unidade de trabalho, enquanto jornadas mais curtas podem estar ligadas a ganhos.

Produtividade não depende apenas do número de horas trabalhadas. Ela está relacionada à qualidade da organização do trabalho, ao descanso, à clareza das metas, à saúde física e mental dos profissionais e à capacidade da empresa de medir desempenho por entrega, e não apenas por presença.

Do ponto de vista psicológico e organizacional, trabalhadores mais descansados tendem a apresentar maior concentração, melhor regulação emocional, menor propensão a erros e mais disposição para cumprir metas. Uma pessoa exausta pode até estar presente por mais horas, mas isso não significa que esteja produzindo melhor.

O custo da exaustão raramente aparece de forma clara na contabilidade das empresas. Ele surge em afastamentos, falhas operacionais, conflitos, baixa qualidade no atendimento, acidentes, perda de talentos, retrabalho e queda de engajamento. Em um mercado dependente de experiência do cliente e qualidade de serviço, esses fatores têm impacto econômico real.

No Brasil, a extensão das jornadas ainda é um traço persistente do mercado de trabalho. Nota do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp aponta que a proposta de redução da jornada semanal para 36 horas, combinada ao fim da escala 6×1, atinge diretamente ao menos 37% dos trabalhadores formais e pode impactar até 75% da força de trabalho quando considerados segmentos informais. O estudo também mostra que 20,88 milhões de pessoas estão em sobrejornada, trabalhando acima do limite legal.

Esse cenário mostra que o debate não é marginal. Ele toca a forma como milhões de brasileiros distribuem seu tempo entre trabalho, deslocamento, cuidado, descanso, família e saúde. Ter apenas um dia de descanso por semana pode limitar a recomposição física e emocional, especialmente em atividades com alta demanda, pressão por metas, deslocamento longo e esforço físico.

Experiências recentes ajudam a relativizar a ideia de que menos horas significam menor produção. No Brasil, um piloto da semana de quatro dias conduzido pela 4 Day Week Brazil, com participação de pesquisadores e organizações como a FGV-Eaesp, envolveu 21 empresas e 290 funcionários. Segundo os resultados divulgados, 71,5% dos participantes relataram aumento de produtividade, 60,3% apontaram maior engajamento, houve redução de 72,8% na exaustão frequente e queda de 49,6% na insônia.

O modelo testado não é idêntico ao fim da escala 6×1, mas oferece uma pista importante: quando a redução de jornada vem acompanhada de reorganização de processos, metas claras e mudança na gestão, ela pode produzir ganhos. O erro seria simplesmente cortar dias de trabalho sem redesenhar a operação.

Por isso, a transição precisa ser responsável. Empresas que dependem de atendimento contínuo terão desafios reais. Será necessário rever turnos, dimensionar equipes, investir em tecnologia, automatizar processos, qualificar lideranças e melhorar a gestão de escalas. Em alguns casos, haverá custo inicial, que precisa ser comparado aos ganhos potenciais de produtividade, retenção e redução de afastamentos.

A inflação pode sentir efeitos pontuais se setores intensivos em mão de obra repassarem parte dos custos de adaptação ao consumidor. Mas não há razão para tratar esse impacto como permanente. Uma reorganização bem planejada tende a reduzir desperdícios, melhorar a eficiência e diminuir custos ligados à rotatividade. O problema não está na redução da jornada em si, mas na forma como ela será implementada.

Durante muito tempo, o Brasil associou dedicação a longas jornadas. Estar disponível por muitas horas foi confundido com produtividade. Esse modelo está distante das necessidades do trabalho moderno. Empresas competitivas medem resultado, qualidade, velocidade de resposta, inovação e satisfação do cliente. Nenhum desses indicadores melhora automaticamente porque alguém trabalhou seis dias seguidos.

O desafio é não romantizar nem demonizar a proposta. O fim da escala 6×1 não resolverá sozinho os problemas do mercado de trabalho brasileiro, nem deve ser implementado sem planejamento. Mas a ideia de que a redução da jornada é apenas custo ignora evidências importantes sobre saúde, produtividade e organização do trabalho.

Trabalhadores mais descansados tendem a produzir melhor, errar menos e permanecer mais tempo nas empresas. Em um mundo no qual talento, atenção e saúde mental se tornaram ativos econômicos, o descanso deixou de ser pausa improdutiva. Ele passou a ser parte da própria produtividade.

A modernização do trabalho brasileiro passa por essa compreensão. Não se trata apenas de reduzir dias na escala. Trata-se de construir uma forma mais saudável, eficiente e sustentável de trabalhar.

Soraia Pena é psicóloga organizacional e consultora em desenvolvimento Humano & Saúde Mental Corporativa

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *