Levantamento da RSM revela que 45% das companhias já solicitam informações socioambientais e de governança como critério de contratação e compliance
Um levantamento técnico realizado pela consultoria RSM indica que 45% das empresas passaram a exigir formalmente informações relativas a critérios ESG (ambientais, sociais e de governança) de seus respectivos fornecedores. Os dados sinalizam uma mudança nas dinâmicas de suprimentos e compras corporativas, estabelecendo o alinhamento socioambiental e de governança como um fator que influencia diretamente a manutenção de contratos e as relações comerciais dentro das cadeias produtivas.
Laura Peiter, diretora de Sustentabilidade da Profile, avalia que o mercado passa por um período de transição prática nas mesas de negociação. “O ESG migra de uma agenda de posicionamento para um critério efetivo de tomada de decisão”, explica. De acordo com a especialista, a transparência e a estruturação de políticas de governança e gestão de riscos socioambientais passaram a atuar diretamente na competitividade e no nível de permanência de fornecedores de diferentes portes nas cadeias globais de valor.
A pesquisa da RSM aponta ainda que 82% das corporações instaladas na América Latina classificam a agenda ESG como essencial para a continuidade e eficiência de suas operações cotidianas. O monitoramento de riscos e a governança corporativa, que integram a pauta, registraram um incremento de 55% como prioridade estratégica no balanço entre os anos de 2024 e 2025, o que demonstra uma centralidade crescente do tema nos comitês de decisão das empresas.
Pressão na cadeia de valor e compliance contratual
A evolução desses indicadores reflete-se na revisão das políticas de compras e nas auditorias de terceiros. “À medida que grandes empresas incorporam critérios ESG em contratos e processos de compliance, a pressão se desloca naturalmente para toda a cadeia de valor”, pontua Peiter.
Essa tendência de descentralização regulatória e contratual é ratificada pela Pesquisa ESG da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN). O mapeamento industrial corrobora que companhias focadas em manter competitividade de mercado expandiram seus níveis de exigência e conformidade socioambiental para além das fronteiras de suas fábricas e escritórios, aplicando sanções e avaliações restritivas a prestadores de serviços, parceiros e fornecedores de matéria-prima.
Auditoria de evidências e o ESG como filtro de acesso
O cenário atual também demanda uma evolução na apresentação de dados empíricos, reduzindo o espaço para o chamado greenwashing ou comunicações puramente institucionais. Michele Salles, sócia de Impacto Social, destaca o aumento na cobrança por indicadores auditáveis e relatórios substanciais de impacto. “Não basta mais comunicar compromissos ou publicar relatórios”, pondera. “Empresas são cobradas por consistência entre narrativa e operação, especialmente em condições de trabalho, impacto nas comunidades e responsabilidade sobre fornecedores.”
Nesse formato de governança corporativa e gestão de riscos, os critérios socioambientais ganham contornos essencialmente financeiros e contratuais. “Quando esses fatores entram em processos de contratação, compras e gestão de risco, o ESG funciona como um filtro de acesso ao mercado”, conclui Salles.
Analistas de mercado preveem que a integração de metas ESG em cláusulas contratuais, normativas de compras e avaliações periódicas de compliance deve se intensificar no encerramento do primeiro semestre de 2026. A governança da cadeia de valor consolida-se, portanto, como um dos pilares de contenção de riscos jurídicos e operacionais para empresas que buscam financiamento e liquidez no ecossistema corporativo.

