Diagnóstico da Miraê Consultoria aponda que falhas em governança, sucessão e cultura organizacional ameaçam a longevidade dos negócios; estatísticas revelam que 70% das transformações corporativas falham
O aquecimento do mercado e a aceleração tecnológica têm impulsionado o faturamento de diversas organizações brasileiras, mas essa expansão financeira traz à tona um gargalo estrutural: a incapacidade das lideranças de acompanharem o novo tamanho de suas operações. Um diagnóstico setorial realizado pela Miraê Consultoria identificou que empresas em ciclos de expansão acelerada enfrentam sérios riscos de sustentabilidade devido a fragilidades crônicas em gestão, clareza de papéis e desenvolvimento de lideranças. O levantamento adverte que a receita gerada na ponta comercial pode ser anulada se a retaguarda institucional não migrar de um modelo amador para uma governança profissionalizada.
Essa assimetria entre faturamento e maturidade de gestão encontra eco em indicadores globais. Dados consolidados pela McKinsey apontam que aproximadamente 70% das transformações e reestruturações organizacionais falham em manter os ganhos de eficiência ao longo do tempo. Complementarmente, a 28ª Global CEO Survey, conduzida pela PwC, revela um cenário alarmante de escassez de comando: somente 14% dos presidentes de corporações acreditam dispor de líderes preparados em quantidade e qualidade suficientes para executar suas metas de crescimento estratégico.
O calcanhar de Aquiles das empresas familiares e o nó da sucessão
O cenário mapeado pela consultoria ganha contornos dramáticos quando sobreposto à realidade do tecido empresarial brasileiro, composto majoritariamente por negócios de controle familiar. De acordo com informações do IBGE e do Sebrae, essas organizações representam cerca de 65% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e respondem por 75% dos empregos formais no país. Contudo, a falta de planejamento sucessório e a dependência da figura dos fundadores interrompem a continuidade desses ativos: apenas 30% dessas empresas sobrevivem à transição para a segunda geração, e o índice desaba para menos de 15% quando o desafio é alcançar a terceira geração.
Carine Leal Fraga, economista e CEO da Miraê Consultoria, esclarece que as lideranças costumam confundir conflitos operacionais cotidianos com falhas humanas, ignorando a ausência de arquitetura organizacional. “Muitas empresas acreditam que seus desafios estão relacionados às pessoas, quando, na realidade, a origem dos problemas está na falta de clareza de papéis, alinhamento estratégico, processos de decisão e desenvolvimento de lideranças. À medida que a empresa cresce, torna-se indispensável fortalecer a estrutura organizacional para que o crescimento seja sustentável e não gere fragilidades internas”, avalia a especialista em estratégia de pessoas.
Cultura e governança como ativos de sobrevivência
O relatório da consultoria conclui que os principais entraves para a consolidação de valor de longo prazo estão associados à centralização excessiva de decisões nas mãos da diretoria executiva primária e à total ausência de planos formais para a formação de novos diretores e gestores. Conforme a complexidade das filiais e produtos aumenta, esses gargalos se amplificam, gerando perda crônica de produtividade e fuga de talentos qualificados.
A superação desse cenário exige que as empresas tratem a reestruturação interna como investimento de sobrevivência de mercado, e não como uma atividade secundária de recursos humanos. “Quanto maior a empresa se torna, maior é a necessidade de investir em cultura, governança, liderança e processos. O crescimento não elimina problemas estruturais; ele os amplia”, pondera Carine Fraga. O alinhamento rigoroso entre as ambições de mercado e a evolução da infraestrutura de gestão surge, portanto, como o único caminho viável para converter o pico de faturamento momentâneo em longevidade institucional corporativa.
