Especialista da FECAP analisa como o jogo infantil dos anos 1990 se profissionalizou em um mercado de colecionáveis alternativos que movimenta cifras históricas e atrai investidores globais

Crédito: Divulgação

O universo das cartas Pokémon vive um momento de valorização sem precedentes no mercado financeiro global. O que começou nos anos 1990 como um passatempo para crianças hoje movimenta cifras milionárias em casas de leilão internacionais, despertando a atenção de investidores, fundos e colecionadores. Por trás desse fenômeno, existe um mercado maduro sustentado pela combinação de escassez, demanda constante e valor emocional.

Para o Doutor em Finanças e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Ahmed El Khatib, o valor de mercado dessas peças não reside no custo físico de produção, mas na concorrência gerada pela oferta limitada.

“Uma carta rara não vale milhares ou milhões de reais pelo papel ou pela tinta. Seu preço decorre daquilo que ela representa para um grupo de compradores e, principalmente, da quantidade de pessoas dispostas a competir por uma oferta extremamente limitada”, explica El Khatib.

Profissionalização do setor e a “Economia da Nostalgia”

A expansão do segmento acompanhou um processo de profissionalização idêntico ao de ativos tradicionais como obras de arte, relógios de luxo e moedas raras. Empresas de certificação internacional agora avaliam a autenticidade e o estado de conservação de cada exemplar, enquanto plataformas digitais garantem liquidez e transparência às negociações.

Esse rigor técnico criou um novo conceito de raridade: o estado de conservação. Uma mesma carta pode ter milhares de cópias no mundo, mas apenas poucas dezenas que alcançam a nota máxima de preservação, fator que multiplica o valor de mercado de forma exponencial.

Somado a isso, a “economia da nostalgia” atua como motor do setor. As crianças das décadas de 1990 e 2000 atingiram a vida adulta, conquistaram poder aquisitivo e passaram a adquirir itens que marcaram a infância. O mercado se consolida ao unir essa capacidade financeira da geração veterana com a chegada constante de novos públicos impulsionados por filmes, desenhos e jogos eletrônicos.

Recordes, especulação e alertas ao investidor

A dimensão desse ecossistema ficou evidente em fevereiro de 2026, quando um exemplar da raríssima carta Pikachu Illustrator foi arrematado por aproximadamente US$ 16,5 milhões, estabelecendo um novo recorde mundial para artigos colecionáveis do gênero.

Créditos: Reprodução/Logan Paul/Facebook

No entanto, o especialista da FECAP alerta para os riscos do setor, ressaltando que o mercado combina uma tendência de crescimento estrutural com surtos de especulação.

  • Sinais de alerta: Compras motivadas exclusivamente por euforia, criação de escassez artificial por revendedores e disparidade entre os valores anunciados e os preços realmente liquidados nas vendas;
  • Fatores de risco: Baixa liquidez, dificuldades de armazenamento, custos com importação, risco de roubo ou avarias físicas e ameaça de falsificações.

“O maior erro é confundir coleção com investimento. Comprar porque se gosta do objeto é perfeitamente legítimo. O problema surge quando a pessoa utiliza a ideia de investimento para justificar gastos que comprometem sua saúde financeira”, conclui o professor.

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