Pois é, caro leitor, cara leitora. Daqui a três dias, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados. É uma grande responsabilidade — e também um dos momentos em que a democracia deixa de ser apenas uma palavra bonita para se tornar uma prática concreta.

E as empresas fazem parte dessa prática.

Não porque precisem apoiar candidatos ou transformar seus canais em palanques. Mas porque, dentro delas, trabalham pessoas com histórias, crenças e opiniões diferentes. É justamente aí que uma organização mostra o que entende por respeito, liberdade e convivência.

Nas eleições de 2022, vieram a público relatos de empregadores que pressionaram funcionários a votar em determinados candidatos. Não se trata de uma prática generalizada — mas basta que aconteça para revelar um problema sério: quando a relação de poder no trabalho é usada para constranger a escolha política de alguém, a empresa deixa de ser apenas espectadora da vida democrática. Ela passa a interferir nela.

E essa interferência não desaparece quando a campanha termina. Fica na lembrança de quem foi pressionado, na confiança que se rompe e na reputação que a organização construiu — ou deixou de construir.

Por isso, quando digo que as empresas podem se posicionar neste momento, não estou falando de declarar apoio a uma candidatura. Estou falando de demonstrar, com coerência, que a liberdade de escolha é um valor inegociável. Que ninguém precisa temer represálias por votar de acordo com a própria consciência. Que é possível conversar sobre o país sem transformar divergência em ofensa, ameaça ou motivo para humilhação.

Às vezes, ouvimos que “trabalho não é lugar de política”. Mas somos seres políticos porque vivemos em sociedade, tomamos decisões que afetam outras pessoas e participamos — de muitas maneiras — da vida coletiva. Isso não significa que toda reunião de trabalho precise virar debate eleitoral. Significa reconhecer que proibir qualquer conversa ou fingir que diferenças não existem não é o mesmo que construir um ambiente respeitoso.

Uma empresa não precisa concordar com todas as opiniões. Precisa, sim, deixar claro que a discordância não autoriza o desrespeito nem a coerção. Pode criar espaço para informação confiável, escuta e conversa civilizada. Pode incentivar seus funcionários a participar da vida cívica e a votar livremente, sem sugerir que a escolha de um candidato será recompensada — ou que outra escolha terá consequências.

Esse cuidado é, também, uma questão de relações públicas. A reputação não nasce apenas das mensagens que uma organização publica; forma-se na percepção que seus diversos públicos constroem a partir de seu comportamento. E os funcionários são parte essencial desses públicos. O que uma empresa diz sobre respeito precisa aparecer na forma como trata as pessoas que trabalham nela.

Talvez algumas marcas ainda acreditem que só podem se manifestar oficialmente se for para “falar com a massa”, e que o único jeito de fazer isso é sendo “neutro”. Mas esquecem que não vivemos mais um mundo de massa e sim de grupos diversos, que esperam e cobram posicionamentos claros das empresas. Mas silêncio e neutralidade não são necessariamente a mesma coisa. O público quer saber o que você pensa e tende a ignorar aquelas marcas que ele não consegue identificar que valores defende.

Mas veja: falo de valores e não de partidos ou nomes. Uma empresa pode não declarar preferência partidária e, ainda assim, se posicionar claramente contra corrupção, violência, intolerância e qualquer tentativa de restringir a liberdade de escolha. Pode defender valores democráticos sem esperar que todos pensem como ela.

E sim: quando uma marca expressa seus princípios, talvez afaste quem não se identifica com eles. Mas tentar agradar a todos também tem um custo — o de esconder a própria identidade e deixar que os públicos deduzam, por conta própria, o que a organização realmente valoriza. Reputação forte não depende de unanimidade. Depende de coerência entre o que se afirma e o que se faz.

Uma empresa não constrói credibilidade às vésperas da eleição, com uma publicação bem calculada ou uma frase de efeito. Ela a constrói ao longo do tempo, nas práticas cotidianas: na transparência, no cumprimento de suas responsabilidades, no respeito à diversidade de pessoas e ideias e na maneira como lida com quem discorda.

Mas este momento oferece uma oportunidade para que esses valores apareçam com mais nitidez. Não em forma de campanha oportunista, mas na postura concreta de uma organização que respeita as instituições, estimula o diálogo e não tenta controlar a consciência de ninguém.

No fim, defender a democracia não combina com exigir que todos escolham da mesma maneira. Ser democrático é garantir que cada pessoa possa escolher sem medo e conviver com quem escolheu diferente.

E a sua empresa: está ajudando a criar esse ambiente?


Nota de apuração: o primeiro turno das Eleições 2026 está marcado para 4 de outubro, conforme o calendário do TSE. Sobre assédio eleitoral no trabalho, a Folha de S.Paulo noticiou 4.273 denúncias registradas nas duas últimas eleições, segundo dados do Ministério Público do Trabalho.

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