Já murcharam tua festa, pá… mas certamente… esqueceram uma semente nalgum canto de jardim. (Tanto Mar – Chico Buarque)
No apagar das luzes do julgamento da trama golpista, que caminha para a inevitável (e previsível) condenação do ex-presidente e seus asseclas, começa a ser contabilizada a dolorosa conta desta jornada messiânica em que a direita brasileira se meteu. É certo que alguns ainda acreditam numa saída política, articulando-se uma anistia imoral (ideia que não conta hoje com respaldo político), ou soluções mágicas como Trump invadindo Brasília num unicórnio branco, ou um duende aparecendo para Bolsonaro e abrindo um portal direto para Miami.
Brincadeiras à parte, é momento para refletir sobre o luto da direita, que realmente acreditou na liderança errática e imprevisível do ex-presidente; ainda em negação, todos olham o apagar do “mito”, e já vai chegando a forte ressaca da aceitação, tudo isso às vésperas de ano eleitoral. Ainda que pese a força do PL nas três esferas de governo, é desafiador o restauro necessário para recompor suas ambições de estar no pleito 2026 como protagonista, uma vez que seu garoto propaganda deixou legado de mentiras e bravatas difíceis de engolir pelos eleitores cada vez mais atentos.
Se a resposta das instituições foi dura, é porque a legalidade existe no mundo real, longe do universo das narrativas patriotas de falsa moralidade – este duelo ético (e muito midiático) deixa claro para a sociedade brasileira, bem como para a comunidade internacional, a nossa vocação democrática, a resiliência dos poderes judiciário e legislativo, que certamente não desejam aventuras tirânicas do poder executivo (nem da esquerda, nem da direita).

É um forte aprendizado para a classe política conservadora trabalhar dentro dos princípios democráticos, onde podem e devem militar pelas causas que desejarem, sem a tentação das viradas de mesa. Acredito também que todos “malucos” (palavras de Bolsonaro) que infernizaram Brasília no 8 de janeiro, começam a compreender a diferença entre cidadania, onde sempre carregamos a responsabilidade dos nossos direitos e deveres, contra a fé cega dos seguidores, que de forma pueril acreditam que existe um “salvador” que nos livrará dos pecados do mundo e nos conduzirá ao paraíso – a massa de manobra predileta dos narcisistas e estelionatários de plantão.
O luto vai durar algum tempo, mas acredito que o Messias será varrido para baixo do tapete da hipocrisia; a democracia vence, mas a um custo elevado – se mostramos força ao rechaçar uma aventura do autoritarismo, também expusemos nossa inocência de participação política, como fiadores de uma polarização delirante, transformada em culto à personalidade de pessoas comuns, ao invés de um debate maduro de ideias e soluções para um Brasil que pede passagem em sua escalada para um futuro melhor.
Como a maçã nunca cai longe da macieira, ainda assistimos ao melancólico crepúsculo de um deputado federal eleito, a emular a vocação paterna para a confusão e desinformação. Mas o mundo segue seu curso conservador, sem se abalar com os poetas e fanáticos. Em resumo, a conta do banquete da gestão bolsonarista chegou para a direita brasileira! É hora de fazer a vaquinha e pagar a fatura e encarar de frente essa encruzilhada, ainda que muitos acreditem que o certo seria fuzilar o garçom.
Tenho convicção que as derrotas nos fortalecem, abrem nossos olhos e criam novas oportunidades – o Brasil merece uma nova geração de líderes políticos da direita à esquerda , com juventude e diversidade de ideias, que seja a cara de nosso maravilhosamente miscigenado país!
Nessa linha: vale acompanhar o efeito que a eleição de Mamdani como prefeito de Nova York terá sobre a classe política americana…

Empreendedor social, consultor empresarial, educador e músico, pai da Mariana e cidadão de Atibaia. Possui mais de 40 anos de trajetória profissional transitada entre o meio corporativo e o terceiro setor. Atualmente é dirigente da ONG Mater Dei de Atibaia-SP e violonista do grupo Eclético Musical.

