Ontem o Brasil foi às urnas, e o primeiro turno terminou apertado: Flávio Bolsonaro com cerca de 47% e Lula com cerca de 45%, com a decisão jogada para o dia 25. Enquanto a apuração rolava, eu via as redes se enchendo da mesma frase preguiçosa de sempre: “a juventude virou conservadora”, “a geração Z é toda bolsonarista”. E eu preciso te dizer, com os dados na mão, que essa frase está errada. Confortável, repetível, e errada.

Deixa eu te mostrar o que os números realmente dizem sobre como essa geração pensa. Porque entender isso importa muito mais do que torcer.

Primeiro, o mito que cai. Uma pesquisa robusta da Quaest, encomendada pelo instituto More in Common, ouviu cerca de dez mil brasileiros e chegou a uma conclusão que contraria o senso comum: os jovens não são mais conservadores que os pais. Em nenhuma das perguntas. É verdade que boa parte se declara conservadora, 68% dos homens e 62% das mulheres de 16 a 24 anos. Mas esse índice é menor que o das gerações mais velhas. Ou seja, a juventude não puxou o país para a direita. Ela é menos à esquerda do que a esquerda gostaria, e menos à direita do que a direita comemora.

Segundo, e aqui mora a parte mais interessante: identificação política e posição sobre os temas quase nunca andam juntas. O mesmo jovem que se diz conservador apoia a ampliação de direitos. Entre os homens jovens, cerca de 70% concordam que casais gays podem adotar. Entre as mulheres, 83%. Eles rejeitam o rótulo “feminismo” com força, quase metade acha que “o feminismo promove ódio aos homens”, mas menos de um quarto acredita que homem é superior a mulher. Traduzindo: essa geração briga mais com as etiquetas do que com o conteúdo. Recusa a bandeira, mas quer boa parte do que está escrito nela.

Terceiro, o dado que deveria estar em todo debate e não está: a juventude está rachada por gênero. E não é pouco. As mulheres jovens caminham para a esquerda e para o progressismo; os homens jovens, para a direita e para o bolsonarismo. A pesquisadora Alice Evans, do King’s College, que estuda isso no mundo inteiro, encontrou no Brasil a mesma fratura que vê em dezenas de países: dentro de uma mesma geração, muitas vezes dentro de uma mesma sala de aula, homens e mulheres de vinte anos estão vivendo universos políticos opostos. Mesma idade, voto oposto.

E o que abriu essa fenda? Aqui o assunto encosta no que eu mais estudo. Não foi um comício nem um partido. Foi o algoritmo. O menino e a menina de dezoito anos abrem o mesmo aplicativo e recebem dois mundos diferentes. Ela recebe conteúdo de empoderamento. Ele recebe conteúdo que associa a ascensão dela ao fracasso dele. A própria Evans aponta o excesso de tela e as bolhas ideológicas como combustível dessa polarização. A urna de ontem é, em parte, o resultado de milhões de feeds que passaram anos empurrando meninos e meninas para cantos opostos do ringue.

Então por que isso importa, para além da eleição?

Importa porque o rótulo preguiçoso cega. Quando um partido, uma empresa ou uma escola engole a ideia de que “a juventude é conservadora” ou “a juventude é toda de esquerda”, erra o alvo inteiro. Perde a mulher jovem progressista achando que ela pensa como o irmão. Perde o homem jovem tratando ele como inimigo, em vez de entender a insegurança que o empurrou para lá. E termina falando com uma juventude que não existe, a juventude de uma frase, enquanto a juventude real, contraditória e dividida, escapa por entre os dedos.

E importa por um motivo maior que o dia 25 de outubro. A geração que rachou nessa eleição é a mesma que vai liderar empresas, criar leis e educar os próprios filhos daqui a dez anos. Se a fratura de gênero que os algoritmos abriram não for compreendida agora, ela não se fecha sozinha. Ela se aprofunda, uma rolagem de tela por vez.

Eu volto sempre à mesma convicção, e ela vale também aqui: a Geração Z não é um problema a ser resolvido, mas um ativo a ser potencializado. E potencializar começa por largar a frase fácil. A juventude brasileira é conservadora e progressista ao mesmo tempo, generosa e ressentida ao mesmo tempo, dividida por um vidro iluminado que ninguém ensinou ela a enxergar.

No dia 25, ela vota de novo. Antes de cravar o que a juventude “é”, talvez valha uma pergunta mais honesta: a gente está disposto a escutá-la, ou só a rotulá-la de novo?

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