Avanço do benefício no mercado global e novas mudanças na legislação brasileira acendem o debate sobre retenção de talentos, cultura organizacional e produtividade
Às vésperas do Dia dos Pais, o debate sobre o papel da paternidade no mercado de trabalho ganha novos contornos impulsionado tanto por mudanças regulatórias quanto pela transformação da cultura corporativa. A sanção da Lei nº 5.371/26, que ampliará gradualmente a licença-paternidade no Brasil de cinco para até vinte dias a partir de 2027, coloca o planejamento e a adaptabilidade no radar de gestores e RHs.
Ao contrário de provocar temores sobre impactos negativos na receita ou na produtividade, o movimento reflete uma tendência global sustentada por dados. A edição de 2026 da Employee Benefits Survey, pesquisa anual realizada pela SHRM Executive Network (maior associação de recursos humanos do mundo), revelou que a concessão de licença-paternidade remunerada pelos empregadores saltou de 31% para 34% em todo o mundo. O levantamento aponta ainda que a licença parental remunerada geral avançou de 39% para 46%.
Para Darwin Grein, CEO da Juntxs e especialista em desenvolvimento humano e organizacional com mais de 15 anos de atuação, o avanço desses números sinaliza que as licenças parentais deixaram de ser encaradas como um mero custo operacional ou obrigação legal para se tornarem um ativo estratégico de atração e retenção de talentos.
“Em comunidades e mercados internacionais, as licenças parentais têm aumentado, refletindo uma tendência de longo prazo: não é só conformismo com a legislação, mas um ativo potencialmente valioso para promoção do bem-estar da força de trabalho. Com uma geração mais preocupada com rotinas flexíveis, não é uma surpresa que os debates de 1988, ainda na criação da licença-paternidade de 5 dias, tenham reconquistado o seu espaço 38 anos depois”, pondera Grein.
Cultura organizacional, retenção e equidade
A discussão sobre a licença-paternidade estendida vai além dos números na folha salarial: ela tange o modelo de liderança que as companhias pretendem desenhar. Quando uma empresa oferece condições para que o profissional participe ativamente dos primeiros dias de vida do filho, o vínculo de confiança se fortalece, reduzindo o desgaste físico e emocional de colaboradores sobrecarregados.
O especialista ressalta, no entanto, que o grande desafio atual das empresas é reduzir a distância entre disponibilizar o benefício no papel e garantir que os homens se sintam seguros para utilizá-lo sem medo de retaliações em suas carreiras.
“Durante décadas, devido aos estereótipos de gênero, o cuidado foi delegado majoritariamente às mulheres, enquanto os homens foram incentivados a priorizar a ascensão profissional. Quando um pai participa ativamente do período inicial da vida do filho, ele está fortalecendo vínculos, compartilhando responsabilidades e ajudando a transformar uma cultura que historicamente sobrecarregou as mulheres. A licença-paternidade é uma ferramenta de transformação das relações de trabalho e da sociedade”, conclui Darwin Grein.
