Indicadores apontam que mais de 80% das famílias possuem dívidas e média de conhecimento sobre o tema estagna em 59,6 pontos em escala nacional

O comportamento do consumidor brasileiro em relação às finanças pessoais apresenta um paradoxo estrutural. Embora temas como inflação de alimentos, custos de moradia e parcelamentos façam parte do cotidiano, as discussões voltadas ao planejamento e à organização orçamentária de longo prazo encontram resistência cultural e operacional na sociedade. O adiamento da checagem de extratos bancários e faturas de cartão de crédito reflete um cenário onde a gestão do dinheiro é percebida como um fator de restrição, e não como um mecanismo de autonomia econômica.

Esse panorama ganha centralidade diante do avanço das métricas de endividamento no país. Um levantamento realizado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) sobre Endividamento e Inadimplência do Consumidor apontou que mais de 80% das famílias brasileiras possuíam dívidas em março de 2026, estabelecendo o maior índice da série histórica do indicador. Paralelamente, dados do Serasa registraram 81,7 milhões de cidadãos inadimplentes em fevereiro do mesmo ano. Complementando o diagnóstico, um indicador desenvolvido pelo Banco Central, em parceria com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mensurou o letramento financeiro da população em uma média de 59,6 pontos, dentro de uma escala que varia de 0 a 100.

Para Adriana Ricci, educadora e planejadora financeira com atuação de 25 anos no setor, os dados demonstram que a gestão orçamentária está vinculada a fatores que vão além do nível de renda, envolvendo aspectos educacionais e culturais. “Quando o dinheiro só entra na conversa como dívida, culpa, cobrança, aperto ou brigas dentro de casa, é natural que a pessoa queira fugir do assunto. Ninguém se aproxima de algo que já chega provocando dor e medo”, avalia a especialista.

Linguagem técnica e os impactos do crédito digital

Outra barreira identificada no processo de difusão do letramento financeiro reside na complexidade dos termos técnicos utilizados pelo mercado. Expressões como “juros compostos”, “Custo Efetivo Total (CET)” e “reserva de emergência” encontram dificuldades de absorção por parte de consumidores que operam na gestão de orçamentos domésticos imediatos ou sob restrição de fluxo de caixa. “Educação financeira precisa sair do sermão e entrar na vida real. Ela tem de conversar com a compra do mês, com o orçamento da casa e com as decisões pequenas que se repetem todos os dias”, pontua Ricci.

A massificação das plataformas de crédito digital adiciona variáveis de risco a esse ecossistema. A disponibilização de linhas de financiamento pré-aprovadas, cartões de crédito e microcrédito diretamente via aplicativos de telefonia móvel agiliza o consumo, mas reduz o tempo de análise regulatória por parte do tomador do recurso. “A oferta é rápida, mas a compreensão nem sempre acompanha a velocidade da decisão. Grande parte das pessoas até sabe o valor da parcela, mas não sabe o custo total da compra, nem quanto da renda futura já está comprometida”, alerta a planejadora.

Historicamente, o debate sobre proventos, investimentos e passivos financeiros foi omitido do ambiente familiar, gerando reflexos na formação educacional de novas gerações. De acordo com a análise de Ricci, a transição para um modelo de consumo consciente depende da desmistificação desses tópicos na rotina civil. “Durante muito tempo, falar de dinheiro foi visto como falta de educação. O problema é que não falar também forma comportamento e só quando o tema se aproximar da rotina vai deixar de ser chato e começar a ser entendido como ferramenta de escolha, proteção e futuro”, conclui.

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