Em audiência pública, empresários defendem que jornadas mais equilibradas reduzem gastos com rotatividade e absenteísmo, que hoje consomem até 12% da folha de pagamento

O debate sobre a flexibilização da jornada de trabalho no Brasil ganhou um novo componente estratégico na Câmara dos Deputados, em Brasília. Durante audiências públicas realizadas nesta semana, representantes do próprio setor empresarial defenderam o fim da escala 6×1. Longe de focar apenas no aspecto social, as argumentações apresentadas por empreendedores e lideranças setoriais focaram em dados práticos que associam escalas mais equilibradas ao aumento da produtividade, à retenção de talentos e à melhora direta nos resultados financeiros das companhias.

Entre os principais destaques esteve o depoimento da empresária Isabela Raposeiras, referência no segmento de alimentos e bebidas. Ela apresentou dados de organizações do comércio, varejo e serviços que já operam em modelos alternativos, como a escala 5×2, demonstrando que a mudança gera eficiência de caixa. “Todas as empresas que eu represento que já estão atuando em escalas diferentes vêm mostrando uma diminuição dos custos de rescisões, de rotatividade e do absenteísmo, que podem representar até 12% do custo de mão de obra e da folha de pagamento”, apontou na audiência.

O custo financeiro do turnover

Um dos grandes gargalos operacionais do mercado de trabalho brasileiro é o índice médio de rotatividade (turnover), que chega a atingir 56% nacionalmente. Para a gestão financeira das empresas, esse fluxo constante de contratações e demissões gera um custo invisível, mas severo, comprometendo de 8% a 12% da folha salarial com encargos rescisórios, processos de seleção e treinamento de novos funcionários.

Na visão dos empresários que defendem a transição de modelo, o desgaste provocado pela jornada 6×1 é um dos combustíveis para esses indicadores elevados. A tese defendida é a de que o descanso adequado atua como um otimizador de desempenho. “Trabalhadores descansados conseguem, em um horário menor, fazer a mesma coisa que faziam em um horário estendido quando estavam cansados, ou até mais, porque erram menos e estão mais dispostos”, defendeu Raposeiras. O diagnóstico do setor indica que a mudança resultou em aumento de produtividade e faturamento: “Vendeu-se mais, perdeu-se menos e os resultados foram muito melhores”.

Ganhos corporativos e a adesão do mercado

As audiências ocorrem em paralelo ao avanço da campanha nacional “O Brasil Quer Mais Tempo”. Para além do debate legislativo, a mobilização já registra a adesão pública de mais de 9 mil empresários de setores como alimentação, recursos humanos, advocacia, seguros e gestão de serviços por meio de suas plataformas oficiais.

O movimento crescente sinaliza uma quebra na narrativa tradicional de que o setor produtivo seria integralmente contrário à revisão da jornada. Para o ambiente de negócios de 2026, a discussão sobre a escala 6×1 passa a ser tratada como uma estratégia de sustentabilidade corporativa. Ao alinhar saúde mental, mitigação de riscos trabalhistas e inteligência operacional, parte do mercado já enxerga a flexibilização não como um aumento de despesa, mas como uma ferramenta viável para garantir maior rentabilidade e eficiência no médio e longo prazo.

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