Especialista em Recursos Humanos aponta que busca por flexibilidade, endividamento e novas jornadas revelam transformação profunda na relação entre colaboradores e empresas

A reconfiguração do mercado corporativo tem levado profissionais a colocarem o tempo como variável central na escolha de vagas, empresas e modelos de carreira. Temas que frequentemente são analisados de forma isolada — como a dificuldade na atração de talentos, aumento da rotatividade (turnover), atuações por diária, múltiplas fontes de renda e debates sobre as escalas 5×2 ou 6×1 — convergem para uma mudança estrutural na relação entre trabalhadores e empregadores.

Para Jaciani Rizziolli, executiva de RH com mais de 25 anos de experiência no setor corporativo e CEO da Bridge HR, a discussão sobre o futuro das jornadas precisa superar a visão simplificada de “trabalhar mais ou menos”, focando na sustentabilidade das operações e no controle do tempo como ativo de valor:

“Talvez estejamos tentando responder a um novo mundo do trabalho com perguntas antigas. O tempo tornou-se um dos ativos mais valiosos na relação trabalhista. As pessoas começaram a perceber com mais clareza quanto da vida entregam ao trabalho e o que recebem em troca. Isso altera a forma de escolher uma empresa, uma carreira e até o tipo de vínculo que desejam. A pergunta para as organizações é se elas vão esperar a falta de mão de obra obrigá-las a reagir ou se vão compreender esses sinais para se preparar antes.”

Fatores econômicos e o impacto do endividamento no perfil de renda

Além de novas expectativas de qualidade de vida, fatores financeiros também impulsionam a busca por novos formatos de trabalho e recebimento. Levantamentos reunidos pela especialista apontam a concessão de R$ 36,8 bilhões em operações de Crédito do Trabalhador nos primeiros sete meses de 2026, enquanto dados da Serasa indicam que 74% dos participantes de pesquisas de mercado já possuíam dois ou mais empréstimos ativos.

Esse contexto econômico ajuda a compreender a atração por diárias e trabalhos por serviço prestado, onde a previsibilidade e a velocidade no recebimento do valor financeiro respondem a necessidades orçamentárias imediatas.

Escala 5×2 como estratégia de negócios e eficiência operacional

A transição de jornadas tradicionais para modelos como a escala 5×2, quando precedida por planejamento técnico, jurídico e de custos, tem demonstrado impacto direto nos indicadores das empresas. Experiências aplicadas no varejo alimentar mostram que a reestruturação da escala é capaz de solucionar gargalos históricos de contratação:

  • Atração e Retenção de Pessoas: Redução do turnover e aumento do volume de candidatos qualificados em processos seletivos.
  • Eficiência Operacional: Diminuição dos índices de absenteísmo (faltas e atrasos) e eliminação do excesso de horas extras.
  • Otimização de Custos: Reorganização interna das equipes sem a necessidade de expansão do quadro de funcionários e diminuição de despesas operacionais com transporte e alimentação.

A adequação entre a flexibilidade de tempo e a eficiência produtiva consolida-se, portanto, como uma exigência de governança para empresas que buscam manter a competitividade e a atratividade de marca empregadora no cenário atual.

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