Bem-vindo(a) leitor(a).
Explorei, nos últimos artigos, o cenário econômico e institucional. Esse é desafiador e devemos buscar acompanhá-lo avidamente.
Agora é o momento de compreender mais sobre a importância do planejamento e gestão do fluxo de caixa (FDC) e sobre as estratégias que poderemos adotar para garantir bons resultados. Na verdade, a gestão do FDC e do Capital de Giro (CG) são fundamentais para a manutenção das atividades das empresas.
A rigor, a gestão de FDC constitui ferramenta de gestão que analisa entradas, saídas e, principalmente, do saldo em dinheiro que a empresa dispõe: recursos em espécie ou saldos bancários que essa mantêm para operar e honrar obrigações recorrentes (pagamento de salários e encargos sociais e trabalhistas – EST, fornecedores e prestadores de serviços, cobertura de juros e pagamento de obrigações fiscais). Tais obrigações são pagas com reservas de Caixa e Bancos que a empresa dispõe. Daí a necessidade de sua análise, dimensionamento e estrito monitoramento e controle.
Nós economistas costumamos dizer, “não adianta ser dono de um Lamborghini e não termos R$ 100 na ‘carteira‘, saldo em cartões e ou bancário pois, em algum momento, houve o acúmulo de riqueza, mas a disponibilidade de caixa não vai garantir o abastecimento e a manutenção do veículo“.

Já a gestão de CG envolve o dimensionado da diferença entre Ativos e Passivos Circulantes representados, respectivamente, pela diferença entre bens e direitos, recursos disponíveis e obrigações assumidas pela empresa no curtíssimo, curto e médio prazos.
Os Ativos Circulantes representam três grandes elementos: disponibilidade de dinheiro em Caixa e Bancos e aplicações de curto prazo; ou seja, são reservas de fundos que podem ser utilizados para cobertura de necessidades imediatas (são recursos liquidez imediata ou de elevada liquidez); Contas a Receber (montantes devidos por clientes a serem pagos, cujo algum percentual de recebimento é incerto); Estoques e produtos disponíveis imediatamente para venda ou oferta de serviços (são recursos com alguma liquidez – no entanto de disponibilidade não tão imediata).

Já os Passivos Circulantes são as obrigações de curto prazo que as empresas assumem para manter suas atividades: obrigações com Fornecedores, Salários e EST, tributação direta e indireta, pagamentos de empréstimos e financiamentos de curto prazo, entre outros.
É lugar comum! Inúmeros estudos, principalmente os desenvolvidos pelo Sebrae, indicam que a falta ou má gestão de FDC e de CG são as principais causas de falência das micro, pequenas e médias empresas.

O planejamento e a gestão de FDC são essenciais para garantir a saúde financeira e sobrevivência de uma empresa. Certas técnicas ajudam a controlar entradas e saídas de dinheiro, minimizando riscos, garantindo a liquidez (disponibilidade imediata de recursos necessária para a cobertura de custos e despesas, fixos e variáveis, de curto e médio prazo e gastos inesperados) relacionada às operações normais da sua empresa.
Seis são as principais estratégias de gestão de FDC que você deve adotar, sobretudo no atual cenário de elevada incerteza:
1. Realizar a projeção do FDC: estimar e fixar os preços finais dos bens e ou serviços que sua empresa oferta; estimar receitas, custos e despesas futuros com base em dados financeiros dessa; avaliar e considerar a sazonalidade relacionada ao empreendimento (flutuações nas receitas e gastos relacionadas ao calendário – por exemplo: uma empresa que vende sovertes tende a ter maiores movimentos durante o verão ou, no final de ano, a empresa deve ter reservas de caixa suficientes para pagar 13º. salário e ou férias e 1/3 de abono); avaliar prazos de pagamento e recebimentos, revisá-los e atualizá-los, com regularidade, para que seja possível antecipar tendências e realizar ajustes, conforme a performance do negócio.
2. Classificar e avaliar os movimentos de FDC em categorias: separar e dimensionar entradas e saídas de caixa decorrentes de atividades de investimento em ativos (aquisição e venda de ativos fixos da empresa: máquinas, equipamentos e instalações, estoques, entre outros), atividades financeiras (aquelas relacionadas ao pagamento e tomada de empréstimos e ou financiamentos, além das decisões de retenção de lucros) e atividades operacionais (essas vinculadas à movimentação de FDC decorrentes da oferta de bens e serviços que absorvem custos e despesas, fixos e variáveis).

3. Controlar Contas a Pagar e Contas a Receber: analisar, monitorar e controlar os vencimentos de obrigações financeiras assumidas como meio de evitar atrasos e juros; (re)negociar prazos junto a fornecedores e clientes como meio de garantir ou equilibrar o FCD do negócio; desenvolver, utilizar planilhas e ou softwares de gestão financeira para automatizar os processos de monitoramento e controle do FDC, bem como buscar formação e ou serviços de consultoria especializada.
4. Definir e manter volume mínimo de reservas financeiras e aplicá-las em investimentos de curto prazo de elevada liquidez: como as receitas, custos e despesas variáveis tendem a flutuar ao longo do tempo é preciso definir e manter fundo de emergência para enfrentar períodos de baixa receita e elevação os custos e ou despesas (o objetivo é manter margem de caixa para cobertura de eventuais imprevistos).
5. Definir e adotar ferramentas tecnológicas para o monitoramento e controle do FDC: utilizar sistemas de gestão financeira para acompanhar o FDC, o que envolve acompanhar e integrar dados relacionados às movimentações bancárias e contábeis como meio de garantir meios para a tomada de decisões de gestão financeiras.

6. Analisar indicadores econômico-financeiros (IEF): avaliar métricas como liquidez e de CG como meio de garantir capacidade de pagamento (como os índices de Liquidez Imediata, Liquidez Corrente e Liquidez Seca, respectivamente: Caixa e Bancos, Ativo Circulante e Ativo Circulante menos Estoques sobre o total de Passivos Circulantes) e monitorar a relação entre recebimentos e pagamentos ao longo do tempo como meio de evitar déficits e a necessidade de captação de novas operações de crédito bancários, no contexto de elevadas taxas de juros.
Muitos podem encarar tais estratégias como extremamente técnicas e ou complexas. No entanto, a recuperação e o uso de dados gerados pelas atividades normais das empresas são relativamente simples e fáceis de modelar para a gestão de FDC e de CG, uma vez que as formas de medição desses se baseiam na análise das entradas e saídas de caixa da empresa ao longo do tempo.
Por meio de técnicas simples, baseadas no uso de dados disponíveis, você poderá identificar certos padrões, adotar medidas e dimensionar sua real necessidade de caixa, como meio de manter níveis adequados de reservas. O objetivo é sobreviver mas, mais do que isso: garantir a sobrevivência e crescimento nesse cenário adverso …

Ante as incertezas econômicas e institucionais, a doção dessas estratégias serão críticas e contribuirão para a redução dos riscos do seu negócio.
Eu e meus colegas do JVN estamos aqui, “hands on”!

Marcello Muniz é economista e mestre em Engenharia pela USP. Com 20 anos de experiência profissional, é perito judicial, atua como Analista de Negócios junto à Data Science Business Management (DBSM) e é professor de Economia junto à Unifaccamp (de Campo Limpo Paulista) e Faculdade Impacta de Tecnologia (FIT).
Atuou como pesquisador da Divisão de Economia e Engenharia de Sistemas do IPT (DEES), consultor do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Analista de Projetos da Fiesp.
Apaixonado por temas relacionados a políticas públicas e economia, autor do livro Matemática para Economia (Ser Educacional), participou na qualidade de coautor de 13 livros, entre esses: Política Industrial (Jornal Valor Econômico), Outward FDI from Brazil and its policy context (Vale Columbia Center on Sustainable International Investment), Gestão da Inovação no Setor de Telecomunicações (Fapesp) e Ressurgimento da indústria naval no Brasil (projeto-Ipea-BID).