Evitar conflitos, medo de ser mal interpretado e comunicação indireta dificultam o desenvolvimento de equipes nas empresas
Dar feedback continua sendo a competência mais desafiadora para líderes brasileiros, mesmo em um cenário de crescente investimento em treinamentos corporativos. A avaliação é de Nathalia Gottheiner, especialista em desenvolvimento humano e fundadora do Centro de Treinamento Executivo Bosque Belo, que atua com executivos e equipes de empresas de diferentes setores em todo o país.
Segundo a especialista, o tema aparece de forma recorrente como a principal dificuldade nos processos de desenvolvimento de lideranças, não por falta de técnica, mas por barreiras culturais profundamente enraizadas. “A maior dificuldade que vejo hoje nas empresas não é dar feedback, é ter coragem para dizer o que realmente precisa ser dito. O brasileiro tem uma cultura de evitar desconforto, de contornar o assunto, de ‘florear’ em volta das palavras para não parecer grosseiro. Isso cria ruído, frustração e equipes que não sabem exatamente onde melhorar”, afirma.
Dados da consultoria Robert Half reforçam esse diagnóstico. Segundo levantamento recente, embora 45% dos profissionais enxerguem o feedback anual como uma oportunidade de crescimento, 26% afirmam nunca receber uma avaliação formal, enquanto outros 19% consideram que os processos existentes são pouco estruturados.
Para Gottheiner, o receio de ser mal interpretado é um dos fatores centrais que levam líderes a evitarem conversas diretas. “Muitos líderes me dizem que evitam falar claramente porque têm medo de machucar, de parecer agressivos ou de gerar conflito. Só que, quando o feedback não é claro, ele deixa de cumprir sua função. A falta de franqueza não protege ninguém, apenas prolonga o problema”, explica.
Experiência fora do escritório
A busca por novas abordagens para trabalhar comunicação e liderança levou a Coexpan Sul a apostar em uma experiência fora do ambiente corporativo tradicional. Segundo Giovanna Rossetto, gerente de RH da empresa, a decisão foi tirar os gestores do escritório e promover uma imersão na natureza, no Centro de Treinamento Executivo Bosque Belo.
“Queríamos algo diferente, que realmente tirasse nossos gestores da rotina e os colocasse em um ambiente de conexão genuína”, relata Giovanna. Ao todo, 18 líderes do Brasil e do Chile participaram de uma vivência de dois dias e meio, que incluiu atividades mediadas por cavalos, escolhidos por sua capacidade de estimular comunicação, presença e confiança.
De acordo com a gerente de RH, a experiência ajudou a reduzir barreiras linguísticas e emocionais. “Até quem tinha medo do animal acabou relaxando. A conexão com a natureza e com os cavalos nos ajudou a refletir sobre liderança de uma forma prática”, afirma. Segundo ela, os efeitos foram percebidos rapidamente, com melhora na comunicação, maior integração entre as equipes e fortalecimento da colaboração. O vídeo da vivência foi apresentado aos C-levels da empresa, que classificaram a experiência como “transformadora”, “profunda” e “impactante”.
Comunicação indireta como traço cultural
Para Nathalia Gottheiner, a dificuldade em dar feedback direto tem raízes culturais. Em um país que valoriza cordialidade, afeto e relações próximas, o confronto costuma ser interpretado como ataque pessoal. “O brasileiro tem uma aversão enorme ao confronto. Crescemos ouvindo que é melhor deixar quieto. Só que, na liderança, deixar quieto significa perder performance, alinhamento e, muitas vezes, talentos”, destaca.
A especialista cita o livro The Culture Map, de Erin Meyer, que analisa diferentes culturas organizacionais. Segundo a obra, o Brasil está entre os países que mais suavizam críticas, adotando uma comunicação de alto contexto, em que mensagens raramente são diretas. “O feedback negativo costuma vir acompanhado de elogios e expressões mitigadoras para preservar a relação. Essa delicadeza demonstra empatia, mas muitas vezes torna o recado menos claro e abre espaço para interpretações ambíguas”, observa.
Ela reforça que o problema não está em falar com cuidado, mas em confundir cuidado com omissão. “Ser direto não é ser duro. É ser responsável. Quando o líder comunica expectativas com honestidade e respeito, cria ambientes mais seguros e produtivos”, afirma. “Mascarar a verdade impede a evolução. O feedback é consciência e ponto de partida para o desenvolvimento”, complementa.
Nos treinamentos conduzidos por Nathalia, o feedback é trabalhado de forma prática, muitas vezes fora do ambiente corporativo tradicional. Segundo ela, a interação com cavalos ajuda líderes a compreenderem a importância da clareza e da congruência emocional. “O cavalo não julga e não interpreta intenções. Ele responde ao que é real naquele momento. Isso mostra, na prática, que a comunicação só funciona quando há presença e verdade”, explica.
Para a especialista, equipes que recebem feedbacks diretos e consistentes tendem a ser mais alinhadas, colaborativas e seguras para aprender com erros. “A liderança brasileira precisa fazer as pazes com a objetividade. Feedback não é ataque, é convite ao crescimento. Quando líderes entendem isso, a performance sobe, a comunicação melhora e a confiança se fortalece”, conclui.

