Janeiro costuma ser vendido como o mês do recomeço. Agenda nova, metas revisadas, discursos otimistas e a promessa de que “agora vai”. Mas, na prática, o que tenho observado nas empresas é algo bem diferente: muitos líderes começam o ano já cansados. E não é um cansaço físico apenas — é um esgotamento silencioso, emocional e estratégico.
Esse fenômeno passa despercebido porque não aparece nos indicadores tradicionais. O faturamento pode estar estável, a equipe voltou do recesso, os clientes continuam comprando. Ainda assim, há algo fora do lugar. Decisões demoram mais para acontecer. A paciência encurta. Pequenos conflitos ganham proporções exageradas. A energia que deveria impulsionar o início do ano parece faltar.
O erro mais comum é tratar esse cansaço como algo pessoal: “é só estresse”, “é começo de ano”, “depois passa”. Não passa. Porque não se trata de uma questão individual, mas estrutural.
Quando um líder inicia janeiro esgotado, normalmente isso indica três problemas combinados: excesso de responsabilidade concentrada, ausência de pausas reais ao longo do ano anterior e uma cultura organizacional que normalizou a sobrecarga. Muitos empresários até param alguns dias em dezembro, mas seguem mentalmente conectados ao negócio, resolvendo problemas, respondendo mensagens e antecipando crises. O corpo descansa, mas a mente não.
Esse estado de alerta permanente cobra seu preço. A liderança começa o ano reagindo, não planejando. Em vez de estratégia, há improviso. Em vez de visão, há urgência. E isso impacta diretamente o time. Equipes percebem quando o líder está emocionalmente indisponível, mesmo que ele tente disfarçar. O resultado aparece em queda de engajamento, aumento de erros, retrabalho e decisões desalinhadas.
Outro ponto crítico é a expectativa irreal que recai sobre janeiro. Muitas empresas projetam o ano novo sem fechar adequadamente o anterior. Problemas não resolvidos são empurrados para frente com a esperança de que “o calendário resolva”. Não resolve. O que não foi elaborado vira peso acumulado — e esse peso aparece exatamente quando deveria existir clareza.
É aqui que mora um risco pouco falado: líderes cansados tendem a tomar decisões defensivas. Evitam conversas difíceis, postergam ajustes necessários, toleram comportamentos inadequados e mantêm estruturas ineficientes por medo de desgaste. A empresa segue funcionando, mas perde potência. Cresce menos do que poderia. Inova menos. Adoece aos poucos.
Janeiro, portanto, não deveria ser apenas um mês de metas e planilhas. Deveria ser um período de leitura honesta do estado emocional da liderança e da organização. Não para romantizar o cansaço, mas para entendê-lo como um sinal de alerta. Liderar exige energia emocional disponível. Sem isso, qualquer planejamento vira ficção.
Empresas saudáveis não são aquelas onde ninguém se cansa — isso é impossível. São aquelas que reconhecem os limites humanos antes que eles se tornem um problema de negócio. Ignorar o cansaço da liderança é um erro estratégico. E caro.
Talvez a pergunta mais importante deste início de ano não seja “quais são as metas?”, mas sim: em que estado emocional estamos tentando alcançá-las?
Se esse tema fez sentido para você, deixe seu comentário aqui na coluna. Como você tem percebido o início do ano na sua empresa ou na sua liderança? Quais sinais de cansaço costumam ser ignorados? Sua participação enriquece o debate e ajuda a transformar reflexões em consciência prática.

Akemi Shida é diretora Geral da AS Consultoria de Recursos Humanos e possui mais de 18 anos de experiência em empresas como Itaú, Globo e FTD Educação. Psicóloga por formação, possui MBA em Gestão Estratégica de Negócios e pós-graduação em Psicodrama Sócio Educacional, além de formação em coaching executivo, life coaching e career coaching pelo Integrated Coaching Institute.
Especialista em liderança, planejamento de carreira, desenvolvimento humano e organizacional, atua como trainer e palestrante pela Abrain – Academia Brasileira de Inteligência. É master trainer pelo Instituto Mentor Coach e foi uma das profissionais de RH responsáveis pela primeira
certificação ISSO 9001 no continente africano, em Angola. Palestrante e escritora, é coautora de três livros: “A Arte de Brilhar”, “Desperte sua Melhor Versão” e “120 Sacadas para a vida pessoal e profissional”.

