Tenho a sensação de que estamos vivendo uma das maiores contradições do mundo corporativo contemporâneo. Nunca se falou tanto em protagonismo, autonomia, resiliência, inteligência emocional e capacidade de adaptação e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tanto receio de tratar profissionais adultos como adultos. Criamos um vocabulário importante para identificar comportamentos que durante décadas foram tolerados indevidamente nas empresas, como assédio, abuso de poder e ambientes tóxicos, mas começamos também a correr o risco de banalizar esses conceitos, utilizando-os para definir situações que pertencem simplesmente à dinâmica normal do trabalho. Nem toda cobrança é assédio. Nem toda pressão é abuso. Nem toda discordância caracteriza um ambiente tóxico. Nem todo chefe exigente é uma liderança despreparada. Nem toda frustração profissional é responsabilidade da empresa. Parece óbvio escrever isso, mas tenho encontrado cada vez mais líderes inseguros diante de situações absolutamente corriqueiras de gestão porque não sabem como uma conversa mais firme será interpretada, repercutida ou eventualmente denunciada.
E isso deveria nos preocupar e MUITO.
Não porque devamos relativizar assédio. Assédio existe, destrói pessoas e organizações e precisa ser combatido com absoluta seriedade. Da mesma maneira, empresas precisam assumir responsabilidade por ambientes que adoecem seus profissionais, e o avanço dessa discussão no Brasil é necessário. Os números ajudam a dimensionar o problema: em 2024, a Previdência Social concedeu 481 mil benefícios relacionados a transtornos mentais e comportamentais, mais que o dobro dos 235 mil registrados em 2019. A atualização da NR-1, ao incorporar de maneira explícita os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho ao gerenciamento de riscos ocupacionais, também demonstra que saúde mental deixou definitivamente de ser um tema periférico na gestão das organizações. Mas justamente porque assédio e adoecimento são assuntos sérios, não deveríamos banalizá-los.
Quando qualquer cobrança passa a ser chamada de assédio, diminuímos a gravidade do assédio verdadeiro. Quando qualquer ambiente exigente recebe o rótulo de tóxico, perdemos a capacidade de distinguir uma organização abusiva de uma empresa que simplesmente estabelece metas, cobra desempenho e espera resultados. E quando qualquer desconforto profissional passa a ser interpretado como uma falha da organização ou da liderança, começamos a construir uma relação de trabalho que se aproxima perigosamente de uma relação paternalista.
É daí que vem a provocação que tenho feito: em algum momento, algumas empresas começaram a se transformar em creches de adultos.
Trabalho exige esforço. Exige disciplina, responsabilidade, força de vontade, capacidade de adaptação e, inevitavelmente, alguma dose de frustração. Haverá dias em que será necessário fazer algo que não gostamos, conviver com alguém com quem não temos afinidade, refazer um trabalho que julgávamos excelente, receber uma avaliação abaixo da que esperávamos, ouvir um “não”, perder uma promoção, aceitar uma mudança de estratégia ou reconhecer que nosso desempenho simplesmente não foi suficientemente bom. Nada disso, isoladamente, configura um ambiente tóxico. Isso se chama vida profissional.
Depois de mais de duas décadas trabalhando com gestão de pessoas, carreiras e desenvolvimento de executivos, vejo com preocupação líderes que começaram a gastar mais energia pensando em como cobrar sem desagradar do que em como desenvolver suas equipes. O cuidado com a forma é indispensável, evidentemente. Respeito não é negociável. Mas existe uma enorme diferença entre respeito e ausência de firmeza, assim como existe uma enorme diferença entre liderança humanizada e liderança permissiva.
Precisamos, inclusive, fortalecer os líderes para que tenham coragem de voltar a exercer uma das funções mais importantes da liderança: dizer a verdade. Com respeito, com dados, com critérios, sem humilhação e sem abuso, mas com clareza suficiente para que alguém saia de uma conversa sabendo exatamente o que precisa mudar. Um feedback que não produz compreensão pode até preservar o conforto naquele momento, mas dificilmente produzirá desenvolvimento.
E talvez tenhamos esquecido algo elementar nessa discussão: uma empresa é também um lugar de trabalho.
Pode parecer uma afirmação simplista, mas não é. Empresas podem e devem oferecer pertencimento, desenvolvimento, relações saudáveis, benefícios, oportunidades e reconhecimento. Devem construir culturas nas quais as pessoas tenham vontade de permanecer. Mas organizações existem também para produzir resultados, atender clientes, competir, inovar, crescer e sobreviver. Não existe emprego sustentável sem resultado econômico, da mesma maneira que não existe carreira sustentável sem entrega.
O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, mostra que apenas 20% dos profissionais no mundo estavam engajados em 2025 e estima que o baixo engajamento tenha custado aproximadamente US$ 10 trilhões em produtividade à economia global. O dado é particularmente interessante porque surge depois de anos em que as organizações ampliaram investimentos em experiência do colaborador, benefícios, bem-estar, comunicação interna e programas de engajamento. Isso não significa que esses investimentos sejam inúteis. Significa que talvez estejamos procurando parte da resposta no lugar errado.
Não existe benefício corporativo capaz de substituir uma boa liderança. Mas também não existe boa liderança capaz de substituir a responsabilidade individual.
Essa segunda parte costuma ser menos confortável de dizer. Construímos corretamente uma agenda sobre aquilo que as empresas precisam oferecer às pessoas, mas falamos muito menos sobre aquilo que pessoas adultas precisam oferecer às organizações. Compromisso, responsabilidade, competência, disponibilidade para aprender, capacidade de lidar com adversidades e disposição para entregar aquilo que foi combinado continuam fazendo parte do contrato profissional, ainda que não apareçam escritos no contrato de trabalho.
Há também uma incoerência que me incomoda particularmente. Queremos profissionais cada vez mais autônomos, protagonistas de suas carreiras e preparados para um mercado em transformação, mas corremos o risco de criar culturas que os protegem de qualquer experiência desconfortável. Só que resiliência não se aprende evitando frustração. Maturidade profissional não se desenvolve eliminando conflitos. Inteligência emocional não significa sentir apenas emoções agradáveis. E protagonismo não significa decidir apenas quando as consequências nos favorecem.
É justamente enfrentando dificuldades que parte dessas competências é construída.
Nada disso autoriza uma empresa a abusar de alguém. Nada disso legitima humilhação, gritos, perseguição, discriminação, metas deliberadamente impossíveis ou qualquer outra forma de violência organizacional. Precisamos ser rigorosos com essas práticas e proteger quem verdadeiramente sofre com elas. O que não podemos fazer é colocar no mesmo lugar o gestor que humilha e o gestor que cobra, o ambiente que adoece e o ambiente que desafia, a violência psicológica e o desconforto de receber um feedback difícil.
Se tudo for tóxico, nada será verdadeiramente tóxico. Se toda cobrança for assédio, enfraqueceremos a própria discussão sobre assédio.
Talvez o próximo avanço das relações de trabalho esteja justamente na maturidade de sustentar essas duas ideias ao mesmo tempo: empresas precisam ser mais humanas, e profissionais precisam ser mais adultos. Uma coisa não elimina a outra. Pelo contrário, uma organização madura deveria ser capaz de oferecer respeito e exigir desempenho, acolher e responsabilizar, reconhecer e cobrar, ouvir e também dizer aquilo que precisa ser dito.
Não quero empresas menos humanas. Quero empresas que compreendam que humanizar não significa infantilizar. Quero líderes preparados e protegidos para exercer sua função com respeito, firmeza e clareza. E quero profissionais capazes de compreender que uma carreira não será construída apenas com reconhecimento, propósito e experiências positivas, mas também com esforço, disciplina, frustração, resiliência e entrega.
Porque o ambiente corporativo não deveria ser uma creche onde adultos são protegidos de qualquer desconforto. Deve ser um espaço profissional no qual adultos são respeitados, desenvolvidos, cobrados e reconhecidos pelos resultados que constroem.
Talvez tenhamos avançado muito ao ensinar as empresas a cuidar melhor das pessoas. Agora precisamos tomar cuidado para não desaprender a tratá-las como adultas.

Executivo de RH e Coach Executivo de diretores, VP’s e CEO’s de empresas nacionais e multinacionais, atendendo clientes em 13 países. Foi executivo de RH de uma das maiores empresas de bens de consumo do país, já desenvolveu mais de 38.000 profissionais ao longo dos seus 24 anos de carreira. Formado em Relações Públicas pela PUCCAMP, pós-graduado em Consultoria de Carreira pela FIA/USP e com 5 certificações internacionais em PNL e Coaching Integrado. Marcos é referência em Carreira e Gestão em veículos como: Valor Econômico, InfoMoney, G1, Yahoo Finance, Globo/EPTV, SBT, Você S/A, TV Bandeirantes, Nova Brasil FM, Carreira & Negócios entre outras, tendo mais de 120 matérias publicadas.
