Previdência Social concedeu mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados à saúde mental em 2025; nova diretriz do MTE exige ação preventiva de gestores antes que o esgotamento afete a operação

A Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária decorrentes de transtornos mentais e comportamentais em 2025, o que representa um crescimento de 15,66% em relação ao ano anterior. O avanço expressivo das licenças coincide com a entrada em vigor das atualizações na Norma Regulamentadora 1 (NR 1), que obriga as organizações a incluírem a gestão de riscos psicossociais em seu Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).

A mudança regulatória transfere o foco do ambiente de trabalho da remediação para a prevenção. Sinais como queda inexplicável no desempenho, absenteísmo, rotatividade elevada (turnover) e aumento nos conflitos interpessoais costumam anteceder a chegada dos atestados médicos ao setor de Recursos Humanos.

Para Jéssica Palin Martins, advogada, psicóloga e fundadora da IntegraMente — plataforma dedicada à saúde emocional corporativa —, a licença médica é apenas a etapa final de um processo de desgaste contínuo:

“Os afastamentos por transtornos mentais não começam necessariamente quando o atestado chega ao RH. Faltas recorrentes, conflitos, mudanças de comportamento e perda de desempenho podem mostrar que existe uma situação que precisa ser compreendida antes que ela se agrave.”

Identificação de gargalos na rotina e impacto na operação

Segundo orientações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) publicadas no Manual de Interpretação da NR 1, as análises de risco psicossocial não devem focar em diagnósticos individuais de saúde, mas sim no mapeamento do ambiente e das condições em que as atividades são executadas. Fatores como metas irrealistas, sobrecarga contínua de tarefas, assédio e falta de suporte da liderança devem ser investigados como perigos ocupacionais reais.

A desestruturação causada pelos afastamentos repercute diretamente na rotina operacional:

  • Sobrecarga das Equipes: A ausência de um profissional exige redistribuição de tarefas e readequação de escalas, elevando o estresse dos demais colaboradores.
  • Gargalo de Liderança: Gestores passam a gastar energia apagando incêndios operacionais e reorganizando demandas em vez de focar no planejamento estratégico.
  • Indicadores do RH: Aumento na taxa de rotatividade, atritos internos e custos diretos e indiretos com desligamentos e novas contratações.

Jéssica Palin reforça que o monitoramento deve cruzar dados quantitativos com escuta ativa:

“Uma alteração individual não permite à empresa diagnosticar um trabalhador. O papel da gestão é observar o contexto. Se faltas, conflitos, desligamentos e dificuldades de desempenho começam a se concentrar em uma área, é preciso entender o que está acontecendo naquela dinâmica de trabalho.”

O debate sobre a saúde mental corporativa também ganha força com a aprovação da Lei 14.831/2024, que institui o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, e com as diretrizes da Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho (CANPAT 2026), voltadas prioritariamente para a mitigação de riscos psicossociais no ambiente corporativo.

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