Pesquisas indicam que mais de 80% dos profissionais consideram mudar de emprego, com maior intensidade entre os jovens; especialista alerta para custos invisíveis e falhas de gestão

A alta rotatividade de profissionais continua sendo um dos principais desafios das corporações brasileiras. Dados da consultoria Michael Page apontam que 44% dos trabalhadores buscam ativamente uma nova oportunidade, enquanto 39% consideram deixar o emprego atual. O movimento é reforçado por levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que revela um crescimento na troca de emprego entre as faixas etárias mais jovens: 25,3% dos profissionais de 25 a 29 anos e 38,2% dos jovens de 18 a 24 anos deixam seus postos antes de completar um ano de empresa.

Baixos salários, jornadas extensas e pouca perspectiva de crescimento lideram os motivos da debandada. Segundo Lucas Oggiam, diretor executivo da Michael Page Brasil, o fenômeno oscila entre desligamentos voluntários e reestruturações econômicas, afetando com mais força os cargos operacionais e de entrada.

Custos invisíveis e indicadores de gestão

Para a advogada Cristiane Dorneles, especialista em Direito Empresarial com mais de 20 anos de atuação, o impacto financeiro da rescisão é apenas a ponta do iceberg.

“A primeira perda nunca é apenas financeira. Quando um colaborador pede demissão, a empresa perde conhecimento, relacionamento com clientes, domínio dos processos e, muitas vezes, produtividade. Esse custo nem sempre aparece no balanço, mas impacta diretamente a operação”, destaca Dorneles.

A especialista ressalta que saídas frequentes devem ser interpretadas como um sintoma da cultura interna:

“Se bons profissionais estão saindo com frequência, o empresário precisa olhar para dentro da empresa. O problema pode não estar na remuneração, mas na liderança, na falta de perspectivas de crescimento, na comunicação ou até na ausência de processos bem estruturados. O empresário não deve apenas calcular quanto custou a rescisão. Deve perguntar: por que estou perdendo talentos?”, orienta a advogada.

Planejamento rescisório e novos perfis profissionais

Quando os desligamentos ocorrem por necessidade de redução de custos, a recomendação é avaliar previamente o impacto na operação e verificar critérios objetivos para evitar alegações de discriminação, garantindo o cumprimento de todas as obrigações trabalhistas. Além disso, alternativas como a reorganização de equipes e a renegociação de despesas administrativas devem ser esgotadas antes do corte de pessoal.

A especialista conclui destacando que a mudança comportamental das novas gerações exige uma postura proativa das lideranças:

“Os jovens valorizam remuneração, mas também buscam desenvolvimento, qualidade de vida e perspectivas de crescimento. A cultura organizacional deixou de ser um diferencial e passou a ser uma estratégia de retenção. Empresas que oferecem clareza sobre oportunidades de crescimento, feedback constante, lideranças preparadas e um ambiente de respeito tendem a reter mais talentos”, finaliza Dorneles.

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