Com a popularização do autocuidado, o que era sinônimo de prazer vem se tornando uma fonte de exaustão. O fenômeno conhecido como beauty burnout afeta não só consumidores, mas também quem trabalha na linha de frente do setor de beleza e bem-estar

O mercado da beleza movimenta bilhões e promete autoestima e bem-estar, mas cresce também um efeito colateral silencioso: o esgotamento causado pelo excesso de rotinas, padrões e expectativas. O chamado beauty burnout descreve a fadiga emocional ligada ao autocuidado excessivo — e, segundo a consultora de Recursos Humanos Bruna Pullig, esse fenômeno atinge igualmente os profissionais que atuam no varejo e nos salões.

“Se o cliente sente exaustão diante de tanto estímulo, imagine quem trabalha todos os dias sustentando esse ritmo no ponto de venda. O colaborador também vive sob pressão: metas agressivas, longas jornadas e a expectativa de estar sempre impecável. Isso é insustentável a longo prazo”, afirma Bruna, fundadora da Ojo Consultoria.

Ela destaca que a qualidade do atendimento depende do equilíbrio emocional dos profissionais. “Falamos muito sobre a experiência do cliente, mas esquecemos que ela é reflexo direto da experiência do colaborador. Humanizar o RH é, na prática, prevenir o esgotamento que já se manifesta tanto no consumo quanto no trabalho”, acrescenta.

De acordo com estudo global da UKG realizado em 2024 com 13 mil trabalhadores, 75% dos profissionais de linha de frente, incluindo os do varejo, relatam sobrecarga e estresse, e 83% da Geração Z afirmam sofrer sintomas de burnout. Bruna observa que os sinais do beauty burnout aparecem em pequenas mudanças de comportamento. “Fadiga constante, irritabilidade, queda de motivação e sensação de não ser reconhecido são alertas importantes. Quando o profissional começa a perder o prazer pelo próprio trabalho, é hora de buscar apoio psicológico e diálogo com líderes”, orienta.

No setor de beleza, a alta rotatividade e o cansaço coletivo reforçam a necessidade de mudanças estruturais. Segundo a consultora, práticas simples de gestão podem reduzir a pressão e melhorar o ambiente de trabalho. “Não adianta falar em bem-estar e manter modelos que esgotam as pessoas. Check-ins semanais, pausas reais e feedbacks construtivos fazem diferença. Reconhecer o valor humano antes dos números é essencial”, afirma.

Bruna defende que repensar a cultura da beleza dentro das empresas é um passo urgente. Isso inclui treinar lideranças para identificar sinais de sobrecarga, redesenhar metas com mais realismo e promover uma cultura de pertencimento e equilíbrio. “Cuidar de quem representa a marca é o primeiro passo para desacelerar o cansaço coletivo. O novo luxo é o equilíbrio — e ele começa dentro das equipes”, conclui.

Embora o termo beauty burnout ainda não seja amplamente usado em pesquisas acadêmicas, o fenômeno se relaciona com temas já estudados, como pressão estética, imagem corporal e esgotamento emocional ligado à aparência.

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