*Da série Cooperação em Alta, por Gianmarco Bisaglia e Luany Moraes
Ler é compreender o mundo; escrever, é transgredir suas regras; e fomentar tudo isso é o desafio ético de uma sociedade que precisa estar consciente de seu momento presente, preservar o passado e construir seu futuro
Sim, estamos enfrentando um daqueles momentos de transição civilizatória, de mudanças velozes e disruptivas, onde a informação se fragmenta no excesso de oferta, apelando ao nosso senso visual e auditivo. No mundo digital, ninguém mais precisa ler, a espécie humana perde aos poucos um dos fatores mais importantes do desenvolvimento humano, a leitura exercita a imaginação e a criatividade, aumenta nossa capacidade de análise e senso crítico, reforça nossa memória, nossa comunicação e identidade cultural. Mas tem muita gente olhando com carinho para esta demanda, tão ligada à nossa história e humanidade.
Um dos projetos mais relevantes de nossa região é o “Piracaia na Leitura”, criado em 2014 em Piracaia (SP), com o objetivo de democratizar o acesso ao livro, à leitura e à cultura. Surgiu como uma iniciativa comunitária diante da escassez de bibliotecas e de ações permanentes de incentivo à leitura no município, defendendo a leitura como um direito de todos e um instrumento de desenvolvimento humano e participação social. O projeto mantém uma rede de 12 minibibliotecas livres, instaladas em pontos de ônibus da zona urbana e rural, permitindo que livros circulem gratuitamente entre os moradores, aproximando a leitura do cotidiano das pessoas, buscando ampliar o acesso à informação e ao conhecimento em diferentes territórios da cidade. Amanda Leal, uma das idealizadoras do projeto nos conta da missão de “formação de leitores, a ocupação cultural dos espaços públicos, a valorização da produção literária local, o fortalecimento das bibliotecas como equipamentos culturais e a defesa de políticas públicas de leitura e bibliotecas para todos”, reforçando a importância da sociedade organizada em prol do interesse público.
O projeto também atua com atividades de mediação de leitura, saraus, piqueniques comunitários, festivais literários, encontros culturais e formação de jovens e adolescentes como mediadores de leitura. As ações valorizam a cultura local, fortalecem vínculos comunitários e incentivam o protagonismo dos participantes. Os resultados alcançados incluem a circulação permanente de mais de 500 livros por semana por meio das minibibliotecas, a mobilização de voluntários e parceiros locais, a realização contínua de atividades culturais e a consolidação de uma rede comunitária de leitura reconhecida dentro e fora do município. O “Piracaia na Leitura” é uma iniciativa do Instituto Cultura Etc., é mantido por meio de doações, editais públicos e trabalho voluntário, e conta com o apoio institucional da Prefeitura Municipal de Piracaia. Pela qualidade e inovação de suas ações, o projeto recebeu importantes reconhecimentos, entre eles o Prêmio Todos por um Brasil de Leitores (Ministério da Cultura, 2015), o Prêmio IBERBIBLIOTECAS (CERLALC/UNESCO, 2017), o Prêmio IPL – Retratos da Leitura (2018) e Menção Honrosa no Concurso Melhores Projetos de Incentivo à Leitura da FNLIJ (2019). O projeto também foi indicado ao Prêmio Governador do Estado de São Paulo em 2021 e 2023, nas categorias Atividades Culturais para Crianças e Incentivo à Leitura. Esses reconhecimentos deram visibilidade nacional e internacional à iniciativa e contribuíram para fortalecer o debate sobre leitura, bibliotecas e participação comunitária em Piracaia e região.

Na vizinha Bragança Paulista (SP), atua a Associação de Escritores de Bragança Paulista – ASES, fundada em 1992, que se dedica ininterruptamente às atividades de fomento à cultura, à literatura e ao livro de maneira geral. A ASES já realizou 28 concursos literários estudantis, envolvendo escolas públicas e particulares do município de Bragança Paulista (alunos do primeiro ano do ensino fundamental ao terceiro ano do ensino médio), e mais de vinte concursos literários de prosa e poesia, para escritores brasileiros e estrangeiros de língua portuguesa.
A ASES realiza também palestras em escolas sobre a importância da leitura, envolvendo desde crianças ainda não alfabetizadas, por intermédio de contação de histórias, até adolescentes que cursam o ensino médio. Neste ano de 2026, foi criado o Clube de Leitura “Mulheres que leem mulheres”, aberto ao público em geral. Conforme Henriette Effenberger – militante e atual Presidente da ASES, “no momento em que vivemos, quando o mundo acontece através de telas de computadores e celulares, os livros digitais também disputam os olhos do leitor! Quem viver, verá qual será o papel do livro e da leitura no “admirável mundo novo”. No momento é arriscado um palpite!” , complementa Henriette.
A OSC Mater Dei, de Atibaia, comunga do mesmo senso de emergência nas ações de fomento a leitura: está em fase de implantação o projeto “Cidades Leitoras”, através de uma emenda parlamentar estadual em parceria com o Instituto Cultura Etc. que vai potencializar as iniciativas de fomento em nossa região; também foi aprovado recentemente o projeto “Jornada da Leitura”, junto ao Fundo Estadual da Criança e Adolescente – em fase de captação de recursos, o projeto pretende desenvolver tecnologia social para fomentar iniciativas literárias e comunitárias abrangendo escolas, organizações sem fins lucrativos, e iniciativas públicas de ação social. A ideia é replicar a iniciativa em 20 cidades das regiões de Campinas, Vale do Paraíba e Grande São Paulo, fortalecendo políticas locais de incentivo à leitura e formação cultural de adolescentes. Essa estratégia de expansão permitirá adaptar o modelo de oficinas e ações formativas a diferentes contextos educacionais, ampliando o impacto do projeto e contribuindo para a criação de uma rede de fomento à leitura e à escrita criativa voltada à juventude.

Outra iniciativa recente tem lugar em Campo Limpo Paulista – o projeto “Histórias de Todos os Povos: Tecendo Culturas”, desenvolvido pela educadora e poetisa Lillian de Meireles com apoio da OSC Mater Dei está em fase de financiamento e implantação; o projeto propõe uma intervenção cultural itinerante que utiliza a contação de histórias e a mediação de leitura como ferramentas de emancipação social e fomento literário. Estruturado em quatro ciclos temáticos — Raízes, Sol Nascente e Especiarias, Areia e Gelo, e Brasil Plural — a proposta promove um diálogo intercultural profundo, unindo mitologias globais à rica herança imaterial brasileira. Ao integrar sonoridades rítmicas e narrativas de matrizes africanas, indígenas, orientais e europeias, o projeto não apenas democratiza o acesso ao livro e à leitura, mas fortalece a identidade e o pertencimento no território de Campo Limpo Paulista, transformando a tradição oral em um poderoso instrumento de educação, arte e encantamento.
Por fim, não podemos deixar de reconhecer o esforço do comunicador Mário Doro, do Portal Doro de Bragança Paulista, e seu forte engajamento com a produção artística regional, com centenas de artigos, entrevistas e podcasts produzidos junto a escritores, compositores e poetas da região Bragantina; temos também a Casa do Leitor de Bom Jesus dos Perdões, sebo, livraria e polo cultural que vem promovendo encontros/palestras gratuitas com autores relevantes como Zé Pacheco, Pe. Júlio Lancelloti, Marcelo Rubens Paiva e outros; e a iniciativa do Jornal Visão de Negócios, sempre cobrindo a produção literária regional para além de dar luz ao trabalho de nossa colega Érica Borgonovi com sua coluna “Eu sou o que eu Leio”… todos semeando letrinhas para tornar nossa terra cada vez mais fértil!
A palavra escrita é conhecimento eterno, nem sempre expresso nas palavras em si, mas na sua interpretação e nas viagens imaginativas que elas proporcionam; a leitura é a porta de entrada para uma melhor compreensão de nós mesmos, nosso tempo e do nosso mundo. Leia-se, pois!
*O Escritório Fortes, iniciativa da ONG Mater Dei, atua justamente nesse campo: apoiando o Terceiro Setor, fortalecendo organizações e difundindo boas práticas sociais. A série “Fortes – Cooperação em Alta” nasce com esse propósito: dar visibilidade a experiências que inspiram e mostram que transformar realidades é possível quando se trabalha em conjunto.

Luany Moraes é estudante de Ciências Sociais na Unicamp. Desde 2022, atua como coordenadora de projetos e captação de recursos no Fortes – Escritório de Projetos da ONG Mater Dei, liderando a elaboração de propostas, a prospecção de parcerias e o acompanhamento de execução das iniciativas.

Empreendedor social, consultor empresarial, educador e músico, pai da Mariana e cidadão de Atibaia. Possui mais de 40 anos de trajetória profissional transitada entre o meio corporativo e o terceiro setor. Atualmente é dirigente da ONG Mater Dei de Atibaia-SP e violonista do grupo Eclético Musical.
