Tem uma frase que eu escuto em quase toda semana “o problema é que os jovens de hoje não vestem a camisa”. É dita com tanta naturalidade que já virou quase um dado. A gente repete, concorda e segue em frente, sem desconfiar nem por um segundo.
Semana passada saiu uma pesquisa que mexeu com essa certeza. A EDC Group ouviu 417 profissionais e perguntou quem pretende trocar de empresa nos próximos doze meses.
A Geração Z apareceu com 40,2%.
A Geração X, com 58,1%.
Os millennials, mais tranquilos, com 33,7%.
Quando eu li, não procurei um novo culpado. Me interessou uma hipótese mais incômoda: talvez a lealdade nunca tenha sido um traço de geração.
Repara no detalhe. Quando um jovem pede salário melhor e um caminho claro pra crescer, a gente chama de imediatismo. A pesquisa mostra a Geração X querendo sair pelos mesmos motivos: salário e falta de perspectiva de crescimento. O pedido é igual. Muda a idade de quem faz, e muda o apelido que a gente dá pra ele.
O que a gente sempre chamou de fidelidade talvez tivesse menos a ver com a alma das pessoas e mais com o que o mundo oferecia a elas. Numa época de carreira em linha reta, ficar vinte anos na mesma empresa era o caminho mais natural do mundo. Hoje tem mais opção, mais informação, e uma expectativa de vida que empurra a carreira pra bem depois dos sessenta. A régua mudou pra todo mundo ao mesmo tempo, dos vinte aos cinquenta. A gente só continuou cobrando pela régua antiga.
E aí mora a parte que custa caro pra quem lidera. Enquanto a empresa inteira gasta energia tentando entender como segurar a Geração Z, ela deixa de fazer a pergunta que vale pra todas as idades de uma vez. Porque quem fica numa empresa raramente fica pela camisa. Fica porque enxerga pra onde ir, porque se sente visto, porque o que recebe faz sentido com o que entrega.
Então, antes de repetir que os jovens não vestem a camisa, talvez valha olhar pra própria camisa e perguntar:
O que ela anda oferecendo. Não pra uma geração. Pra todas.
E fica a pergunta que eu levei comigo essa semana: As pessoas que ainda estão na sua empresa, estão ali porque querem, ou só porque ainda não acharam a porta?

Palestrante, comunicador e entusiasta das gerações. Estuda Ciências Politicas, empreende nas áreas de Comunicação e Marketing. Criou a primeira agência de marketing do Brasil focada em comunicação geracional (Pós Z Company), sediada em Bragança Paulista, onde atualmente só contrata colaboradores da Geração Z e Geração Alpha. Dedica-se a construir um ecossistema de comunicação geracional para preparar jovens para o mercado de trabalho futuro e conscientizar as empresas para receberem esses jovens com sua nova agenda e visão de mundo.
