Da Redação.

Concentração de despesas no primeiro trimestre expõe a fragilidade de empresas sem controle rigoroso de custos e indicadores, em um cenário de crédito ainda caro que não permite erros de gestão

O primeiro trimestre de 2026 funciona como um teste de estresse para a saúde financeira das pequenas e médias empresas brasileiras. A concentração de despesas típicas do período, como o pagamento de impostos e reajustes contratuais, rapidamente expõe a consistência — ou a falta dela — do planejamento feito no ano anterior, tornando a revisão imediata do fluxo de caixa uma medida decisiva para a sobrevivência ao longo do ano.

Marcus Marques (foto: divulgação)

O alerta é de especialistas em gestão, que apontam que o problema muitas vezes não está na falta de faturamento, mas na ausência de um acompanhamento sistemático dos números. “O empresário olha o saldo da conta e acha que está tudo bem. Mas saldo não é lucro. Se ele não entende margem, custo fixo e ponto de equilíbrio, pode estar crescendo e, ao mesmo tempo, se descapitalizando”, afirma Marcus Marques, especialista em gestão de PMEs e fundador do Grupo Acelerador.

Essa percepção é validada por dados do Sebrae, que consistentemente apontam a falta de planejamento e de capital de giro entre as principais causas para o fechamento de empresas no país. A vulnerabilidade é ampliada pelo alto custo do crédito. Com a taxa Selic ainda em patamar elevado no início de 2026, segundo dados do Banco Central, recorrer a empréstimos para cobrir falhas de planejamento se torna uma armadilha que pode corroer as margens de forma irreversível.

Tomar crédito para investir é diferente de tomar crédito para tapar buraco. Quando a empresa usa banco para pagar despesa fixa, o problema já virou estrutural”, pontua Marques.

Diante desse cenário, a recomendação é um mergulho profundo nos próprios números, com foco em três áreas críticas:

  1. Formação de Preços: Muitos empreendedores definem seus preços com base na concorrência, ignorando a própria estrutura de custos, carga tributária e taxas. “Preço não pode ser percepção, precisa ser conta. Se o empresário não conhece a própria margem de contribuição, ele não sabe quanto precisa vender para empatar. E quem não sabe o ponto de equilíbrio trabalha no escuro”, explica o especialista.
  2. Revisão Tributária: Para os mais de 20 milhões de optantes pelo Simples Nacional, mudanças na faixa de faturamento podem alterar a alíquota efetiva e impactar diretamente o lucro. A conferência dos impostos, segundo Marques, precisa ser uma rotina mensal, e não uma reação tardia quando o caixa já está comprometido.
  3. Disciplina Operacional: A gestão financeira eficaz não se resume a planilhas complexas, mas à disciplina. Práticas como a revisão semanal do fluxo de caixa projetado, a separação total das contas pessoais e empresariais e a definição de um pró-labore fixo são fundamentais para evitar decisões impulsivas e garantir a saúde do negócio.

Para Marques, o primeiro trimestre funciona como um termômetro da maturidade de gestão. “Se a empresa precisa correr atrás de dinheiro em fevereiro, é porque o planejamento já nasceu frágil. Gestão financeira não pode ser uma reação. Precisa ser método”, conclui. Em 2026, a diferença entre o crescimento sustentável e a instabilidade estará na capacidade de transformar o controle financeiro em uma rotina estratégica.

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