Estudo da IBM revela que setor de saúde lidera prejuízos por incidente no país, atingindo R$ 12,55 milhões; especialistas alertam para o risco interno e a exploração prolongada de informações confidenciais

O valor de um segredo corporativo no mercado ilegal de dados vai muito além do resgate financeiro imediato cobrado em ataques de sequestro digital. A condenação a 87 meses de prisão de Peter Williams, ex-executivo de uma contratada de defesa nos Estados Unidos que faturou US$ 1,3 milhão negociando ferramentas cibernéticas governamentais com intermediários estrangeiros, evidencia a consolidação de um modelo criminoso focado na apropriação e monetização contínua de tecnologia e inteligência concorrencial.

No Brasil, os impactos financeiros dessa vulnerabilidade atingiram novos patamares em 2026. Segundo o relatório Cost of a Data Breach, divulgado pela IBM, o custo médio de uma violação de dados para as organizações brasileiras chegou a R$ 7,44 milhões — uma alta de 3,5% frente ao levantamento anterior. O setor de saúde lidera o ranking de perdas no país, com custo médio de R$ 12,55 milhões por ocorrência, englobando custos operacionais, contenção de crises, litígios jurídicos e perda de clientes.

Para Daniel Peres, executivo e especialista em segurança da informação, restabelecer os sistemas não neutraliza a ameaça:

“Uma empresa pode recuperar seus sistemas depois de um ataque, mas isso não significa que recuperou o controle das informações roubadas. Dependendo do conteúdo, o criminoso pode continuar explorando aqueles dados por muito tempo, seja por meio de extorsão, fraude ou comercialização ilegal.”

A permanência do dano fica evidente na exposição de prontuários e históricos clínicos, como no caso da americana Change Healthcare, que comprometeu dados de mais de 192 milhões de pessoas. Ao contrário de senhas ou códigos bancários, que podem ser invalidados instantaneamente, diagnósticos, tratamentos e condições biológicas são imutáveis e continuam vulneráveis a chantagens, discriminação e golpes direcionados ao longo de anos. No âmbito empresarial, a extração de gravações internas, estratégias de precificação, minutas de contratos e segredos de patentes corrói investimentos e desequilibra a concorrência.

Outro ponto crítico é o risco interno promovido pelo abuso ou sequestro de credenciais de colaboradores e prestadores de serviço com acesso legítimo. O monitoramento preventivo exige políticas de privilégio mínimo, revisão periódica de permissões, criptografia ponta a ponta e auditoria contínua de acessos.

Além do impacto comercial, os vazamentos acarretam repercussões regulatórias perante a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e a fiscalização da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Conforme pontua Lucas Paglia, advogado especialista em direito digital e cibersegurança:

“Quando ocorre um vazamento, a discussão jurídica não termina na identificação da falha. É necessário avaliar os riscos para as pessoas afetadas, as medidas adotadas para reduzir os danos e se a empresa cumpriu seus deveres de prevenção e transparência. A proteção de dados envolve responsabilidade antes, durante e depois de um incidente.”

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