Nos bastidores corporativos, ainda há gestor que acredita que promover o amigo é um sinal de poder. Que distribuir cargos por afinidade é uma forma de “cuidar dos seus”. E, enquanto isso, o verdadeiro talento vai se desmotivando, o clima azeda e o cliente sente o reflexo sem nem saber por quê.
Segundo o Great Place to Work (GPTW), apenas 51% dos profissionais acreditam que as promoções em suas empresas são justas, e só 45% percebem que seus líderes evitam ter favoritos. Isso quer dizer que, em metade das organizações brasileiras, as pessoas trabalham desconfiadas. É um número brutal e explica muito sobre a dificuldade de engajar, reter e inspirar equipes hoje.
Tenho visto em clientes meus mais estruturados o movimento inverso: empresas que criaram comitês de calibração, definiram critérios públicos de promoção, e transformaram o processo em um rito de transparência. Nessas, o diálogo é claro, as regras são conhecidas e os colaboradores sabem que o crescimento vem por mérito, não por amizade. O resultado é imediato: o orgulho de pertencer cresce, o turnover despenca e o discurso de “favoritismo” perde espaço, porque a empresa comunica com fatos.
Mas há outras, infelizmente, onde a falta de governança no RH transforma o favoritismo em método. São empresas em que o dono, o diretor ou o gestor decide com base no “quem eu gosto mais”, e não no “quem entrega mais”. A cada promoção incoerente, uma parte da credibilidade vai embora e junto com ela o engajamento, a lealdade e o desejo de fazer mais. O que sobra é um ambiente cheio de sorrisos falsos, disputas silenciosas e muita gente boa procurando emprego no LinkedIn.
Esse tipo de distorção não nasce apenas do caráter, mas da ausência de processo. Onde não há trilhas de carreira, onde o RH é mero operacional, onde as avaliações são superficiais, o campo fica livre para o improviso. E o improviso, na gestão de pessoas, custa caro: enfraquece cultura, reduz produtividade e, principalmente, mina a confiança, o ativo mais caro de qualquer organização.
Já empresas que figuram entre as Melhores para Trabalhar, segundo o próprio GPTW, mostram outro cenário. Nessas, 82% dos colaboradores afirmam que as promoções são justas, contra apenas 71% no mercado geral. O dado mostra o óbvio: justiça gera engajamento. As pessoas não precisam ser promovidas o tempo todo, mas precisam acreditar que, quando a oportunidade vier, o critério será técnico, não emocional.
Eu sempre digo que quem não governa pessoas será governado pelo ego de alguém. E o ego, no poder, é uma força destrutiva. Governança de RH significa criar sistemas que protejam a empresa até de seus próprios líderes e isso não é burocracia, é maturidade.
Mas, como virar esse jogo? Elenquei aqui alguns pontos que, ao meu ver, podem ser o início de um movimento para minar essas situações:
- Transforme promoção em processo, não em presente.
- Crie comitês de calibração, com mais de um avaliador por decisão.
- Documente critérios de mérito e performance e publique de forma acessível.
- Faça pesquisas internas sobre justiça e favoritismo e trate os resultados.
- Comunique com clareza: explique por que alguém subiu e o que falta para quem ainda não subiu.
Essas práticas não exigem orçamentos milionários. Exigem coragem.
Coragem de olhar para dentro e admitir que há injustiças invisíveis corroendo o clima. Coragem de mexer na estrutura e de enfrentar o desconforto de quem sempre ganhou no “atalho da amizade”.
Tenho a oportunidade de circular por grandes e pequenas empresas no Brasil todo e tenho visto companhias que já entenderam que liderança se prova na coerência. Uma delas, a qual gosto muito de referenciar, implantou um painel anual de sucessão em que todos os gestores precisam justificar suas indicações com fatos, números e comportamentos. Outra, do setor varejista, criou um programa de ascensão às cegas, em que os avaliadores não sabem quem são os candidatos, só leem resultados e evidências. O impacto foi imediato: mais diversidade, mais reconhecimento real e menos “suspeita de bastidor”.
Empresas modernas já entenderam: não é o amigo do chefe que segura resultado, é o competente.
E enquanto os líderes do improviso continuarem premiando afinidade em vez de desempenho, o mercado continuará punindo o que mais dói: a reputação.
Mas há um ponto importante que precisa ser dito.
Sim, a personalidade, o comportamento e a química entre gestor e colaborador contam, e muito. Todo líder quer, além de um bom profissional, alguém com quem goste de trabalhar, que traga leveza ao dia, que compartilhe ideias, que tenha diálogo fácil. Isso é humano, é natural e, em times de alta performance, é até desejável.
O erro está em confundir empatia com privilégio. Ter afinidade não é problema, o problema é transformar afinidade em critério. Quando dois colaboradores têm desempenho parecido, é natural que o gestor escolha aquele com quem tem mais abertura, mais diálogo, mais confiança mútua. Isso não é favoritismo, é maturidade relacional. O que destrói é quando a escolha ignora competência e entrega, e se apoia apenas no “gosto pessoal”.
Em toda liderança existe um componente emocional, mas a diferença entre o gestor profissional e o gestor amador está no peso que ele dá a esse fator. O primeiro reconhece que empatia é um tempero; o segundo, que ela é o prato principal.
Empresas que entenderam esse equilíbrio conseguem construir times com relações saudáveis, respeito técnico e vínculos genuínos. Onde existe transparência, empatia e critério podem coexistir e isso, sim, é liderança de verdade.
No fim do dia, o recado é simples: quem lidera com critérios dorme tranquilo. Quem lidera com favoritismo dorme com medo de ser descoberto, e mais cedo ou mais tarde, certamente será!

Executivo de RH e Coach Executivo de diretores, VP’s e CEO’s de empresas nacionais e multinacionais, atendendo clientes em 13 países. Foi executivo de RH de uma das maiores empresas de bens de consumo do país, já desenvolveu mais de 38.000 profissionais ao longo dos seus 24 anos de carreira. Formado em Relações Públicas pela PUCCAMP, pós-graduado em Consultoria de Carreira pela FIA/USP e com 5 certificações internacionais em PNL e Coaching Integrado. Marcos é referência em Carreira e Gestão em veículos como: Valor Econômico, InfoMoney, G1, Yahoo Finance, Globo/EPTV, SBT, Você S/A, TV Bandeirantes, Nova Brasil FM, Carreira & Negócios entre outras, tendo mais de 120 matérias publicadas.

