Em meio aos debates no Congresso sobre o fim da escala 6×1, pesquisa desenvolvida na UTFPR mostra que o estresse e a sobrecarga de horas sufocam a criatividade e reduzem os ganhos das corporações
Em meio às intensas discussões sobre a flexibilização da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 no Brasil, um estudo desenvolvido na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) aponta que a redução de horas de trabalho pode ser o caminho para aumentar a produtividade e a rentabilidade das empresas.
A tese, defendida pelo pesquisador e doutor Rodrigo de Barros, analisou o impacto da pressão de tempo na capacidade de inovação das equipes. A conclusão é que a criatividade — considerada a principal matéria-prima para a inovação — não surge da repetição contínua de tarefas ou sob ambientes de pressão permanente, mas sim da capacidade do cérebro de aprender, refletir e fazer conexões complexas.
O impacto biológico das jornadas excessivas
Segundo o estudo, a hiperconectividade, as interrupções constantes e a falta de tempo de descanso geram um estado contínuo de sobrecarga cognitiva.
“Sob elevados níveis de estresse, o organismo aumenta a produção de cortisol, hormônio relacionado aos mecanismos de sobrevivência. Embora essencial em situações de risco, sua presença contínua prejudica funções executivas fundamentais para o desempenho profissional, como planejamento estratégico, memória de longo prazo, aprendizado e pensamento criativo”, explica Rodrigo de Barros.
Essa perspectiva encontra respaldo em experimentos internacionais realizados em países como Islândia, Japão, Nova Zelândia e Reino Unido, onde testes com a semana de quatro dias (ou jornadas reduzidas) resultaram em diminuição do absenteísmo, menor rotatividade de funcionários, queda em erros operacionais e aumento real no desempenho financeiro.
Criatividade gera até 2,4 vezes mais faturamento
Mapeando artigos científicos globais e dados do Fórum Econômico Mundial, o pesquisador enfatiza que o avanço da automação e da Inteligência Artificial tornará o pensamento analítico repetitivo cada vez mais obsoleto, elevando o valor das competências puramente humanas.
Estudos da consultoria McKinsey citados na pesquisa mostram que empresas que estruturam adequadamente ambientes propícios à experimentação e à mobilização de pessoas chegam a faturar até 2,4 vezes mais que suas concorrentes.
“O diferencial competitivo das empresas não estará na quantidade de horas que seus profissionais permanecem conectados, mas na qualidade das ideias que conseguem produzir. Nesse contexto, reduzir a jornada deixa de ser apenas uma pauta trabalhista para se transformar em uma estratégia de negócios”, defende o pesquisador.
Para Rodrigo, o futuro da produtividade no mercado corporativo exigirá dos gestores uma mudança de mentalidade: trocar a métrica ultrapassada de horas presenciais pela avaliação da capacidade de aprendizagem, foco e descanso das equipes.
