*Por Nathália Meireles.

A ciência que explica porque você não consegue mais ler um texto até o fim.

A neuroplasticidade vem sendo estudada há alguns anos por cientistas da área da saúde, principalmente por especialistas em neurociência. Para eles, a descoberta de que o cérebro possui capacidade de se reorganizar e criar novas conexões – adaptando-se a estímulos e experiências – mudou o paradigma que, durante décadas, ditou que o cérebro adulto era estático. Um grande avanço para a medicina.

Apesar dessa grande descoberta biológica que, certamente, revolucionará o tratamento de diversas condições, ela também se tornou uma grande oportunidade para os profissionais de comunicação.

À primeira vista, pode não parecer haver conexão entre a plasticidade neural e o ecossistema digital. Contudo, é preciso questionar: como as estratégias de marketing e as Big Techs têm tirado proveito dessa flexibilidade do nosso cérebro? Se você pensa que a neurociência e as estratégias de marketing contemporâneas não estão conectadas, será neste artigo que iremos abrir a caixinha de Pandora.

Durante a leitura, vamos compreender o que é a neuroplasticidade e como ela atua no nosso cérebro. Além disso, exploraremos o conceito do “cérebro escaneador”, o impacto do consumo de conteúdos instantâneos e rasos e, por fim, algumas práticas para resgatar o pensamento profundo no dia a dia.

O que é Neuroplasticidade?

A neuroplasticidade é a capacidade intrínseca do cérebro de se reorganizar diante de estímulos, influências internas e demandas do ambiente externo. Longe de ser um órgão estático, o cérebro humano é uma rede dinâmica de bilhões de neurônios interconectados.

Para os profissionais de comunicação, que observam o comportamento humano a partir do olhar mercadológico, entender essa dinâmica é fundamental. Não precisamos ser neurocientistas para compreender que a forma como realizamos nossas tarefas diárias deixa uma “marca” em nossa rede neural.

Como mencionado, o cérebro possui uma habilidade incrível de adaptação. Essa flexibilidade permite que nos ajustemos a novas experiências, mudanças ambientais e até mesmo a processos de recuperação após lesões. No entanto, é exatamente essa mesma capacidade de adaptação que se torna uma via de mão dupla: se, por um lado, ela nos permite aprender novas habilidades, por outro, nos torna suscetíveis a moldar nosso cérebro conforme os estímulos constantes do ecossistema digital. É aqui que o “cérebro escaneador” ganha espaço.

O padrão de leitura do cérebro escaneador.

Ao estudar a obra Geração Superficial, de Nicholas Carr, pude compreender melhor a neuroplasticidade e o padrão de leitura que se tornou predominante na era digital.

Com base em diversos estudos citados por Carr sobre o rastreamento ocular (eye-tracking), percebe-se que, na internet, os olhos dos usuários raramente seguem a leitura linear – da esquerda para a direita, de cima para baixo -, usada com frequência na leitura de livros e artigos.

O conceito predominante é que o cérebro adota um padrão em formato de “F” ou “E”. Os usuários da internet leem dessa forma: fixam-se nas duas primeiras linhas, pulam para o meio do texto, descem rapidamente em direção ao final e escaneiam apenas palavras-chave em busca de relevância imediata. Em resumo, o texto só é considerado digno de atenção se o indivíduo encontrar termos que despertem interesse imediato.

O impacto dessa nova “metodologia” de leitura é o cérebro desaprender a decodificar estruturas argumentativas complexas, pois busca apenas a “informação útil” escondida em meio ao emaranhado de palavras. Aos poucos, perde-se a capacidade de ler frases inteiras ou parágrafos longos. Como resultado, nota-se o crescimento da terceirização do pensamento e uma constante sobrecarga cognitiva.

Quando a informação vira fragmento.

O que ninguém pode negar é que os conteúdos curtos e virais bombardeados nas redes sociais prendem a total atenção do usuário. Dentro dessa afirmação, existem muitas camadas: o algoritmo treinado com base nos interesses da pessoa, o tempo de tela exagerado – passando das seis horas diárias – e o fácil acesso a informações na palma da mão. Por conta disso, estamos passando por um processo chamado “fragmentação da informação”.

Carr traz um argumento muito pertinente em Geração Superficial, apesar de o livro ter sido publicado há mais de onze anos. Ele pontua que a internet, em seu princípio, é um ecossistema de interrupções – descrevendo como a web nos entrega informações em pequenos “pedaços” ou segundos de sabedoria. Um exemplo é quando assistimos a um vídeo ensinando uma receita.

Antigamente era necessário consultar um livro de receita, comumente deixado pelas avós a seus filhos. Essa relíquia era passada de geração em geração. Para realizar qualquer uma das receitas contidas no livro, era necessário seguir as instruções, o passo a passo – desde a escolha dos ingredientes até o modo de preparo. Dessa forma, seguíamos uma linha de raciocínio; criávamos um “mapa mental” coeso e aplicável.

Agora, quando a mesma receita é apresentada no formato de vídeo para as redes sociais, a cada etapa aparece em cortes. No primeiro vídeo, de trinta segundos, a pessoa se apresenta e mostra os ingredientes necessários. Enquanto você assiste, surge uma notificação no celular – aqui ocorre a primeira distração – e, dependendo da mensagem, você pausa o vídeo e responde.

No segundo corte, a pessoa começa a mostrar o modo de preparo, mas, simultaneamente, um anúncio começa a aparecer. Então, você precisa dividir a sua atenção entre o modo de preparo e o anúncio do produto – novamente outra distração. No último vídeo, a receita apresentada foi finalizada, sendo que você mal lembra quais foram os ingredientes usados.

Neste cenário, a informação está picotada e interrompida. Embora você tenha acompanhado a preparação da receita do começo ao fim, não entendeu o modo de preparo e não lembra dos ingredientes usados. Houve o custo de alternância: seu cérebro foi forçado a trocar de assunto em vários momentos – com a notificação das mensagens e o anúncio simultâneo. Isso mostra o quão fragmentada está a nossa atenção em meio à hiperconectividade e os malefícios que estamos prestes a colher.

A atenção como mercadoria.

O mercado de bem-estar é o nicho que mais se beneficia dessa fragmentação da atenção. Trazendo esse olhar para o universo do wellness, o exemplo da receita em vídeo se aplica diretamente: a saúde, que é um processo sistêmico, biológico e longo, é transformada em protocolos curtos e de resultados imediatos. Com isso, as marcas vendem, em poucos segundos, soluções fragmentadas para problemas que exigem um processo longo e acompanhado por profissionais da saúde. A verdade é que elas não querem que você resolva o seu problema e melhore a sua qualidade de vida – querem que você sinta uma breve ansiedade, como um conteúdo curto e imediatista, e volte a consumir.

Como resgatar o pensamento profundo.

Em meio a tantas informações bombardeadas a todo instante e sem permissão, o que podemos fazer para resgatar o pensamento profundo e individual? Venho pensando sobre isso há alguns dias – olhando para os lados e me perguntando o que posso fazer para dar um reset na minha mente.

Pesquisando em inúmeras fontes, desde artigos acadêmicos e livros que retratam o assunto até mesmo conteúdos educacionais na plataforma de vídeos longos, percebi algo.

Não há necessidade de sermos extremistas e correr para a torre mais alta do castelo abandonado e viver como uma alienada. Na verdade, o que mais precisamos é de uma reeducação da nossa atenção. Ou seja, disciplinar o nosso cérebro para que não se torne tão refém da hiperconectividade e dos avanços das ferramentas tecnológicas.

Diante disso, para combater o efeito do “cérebro escaneador” e a cultura dos conteúdos curtos e virais, o caminho consiste em adotar estratégias que devolvam ao nosso cérebro o tempo necessário para o pensamento de qualidade e uma opinião autêntica. Compartilho com vocês algumas sugestões que tanto me ajudaram a “resetar” meu cérebro quanto podem ajudar você ou alguém que conheça e precise de um norte.

Três práticas para reeducar a sua atenção.

  • Priorize o “consumo linear”

Dentro da sua rotina pessoal e de trabalho, procure estabelecer períodos do dia dedicados à leitura profunda – seja de um livro (recomendo), um artigo extenso sobre um assunto que desperte curiosidade ou uma simples, porém profunda, poesia. Construir o hábito de ler textos longos é o melhor caminho para combater a fragmentação da atenção, pois obriga o cérebro a exercitar o raciocínio contínuo, em vez do escaneamento superficial.

  • Adote um “jejum intermitente de estímulos”

Não parece, mas o cérebro precisa de momentos de ócio para absorver informações. Aquele momento após o fim da leitura – seja de um artigo profundo sobre o sono ou de um livro do gênero de suspense – é essencial: algo como um respiro longo e profundo para tomar fôlego e continuar a viver. Longe de telas, em completo silêncio, sem interrupções de sons ou notificações.

  • Torne-se um curador, e não um coletor

Troque de posição: em vez de consumir tudo o que o algoritmo joga na sua tela, escolha propositalmente o que assistir. Busque conteúdos que exijam esforço intelectual e ofereçam profundidade. Se aceita uma sugestão, procure por conteúdos longos que expliquem o surgimento de países, suas culturas e costumes. São incrivelmente interessantes!

Quem mais se beneficia ao adotar essas estratégias é a sua saúde mental – o ativo mais valioso que você possui, e que não pode ser terceirizada. As outras pessoas não podem pensar por você, decidir por você. O mercado pode oferecer infinitas distrações, mas, no final das contas, quem escolhe é você. O caminho para o bem-estar permanece o mesmo: exige consistência, propósito nas escolhas, esforço contínuo e a coragem de ignorar as tentações rápidas e fáceis. Foque naquilo que verdadeiramente nutre a sua existência como indivíduo.

Se esse artigo lhe ajudou de alguma forma ou, pelo menos, abriu os seus olhos, peço que compartilhe com amigos e familiares. Vamos juntos combater a terceirização do pensamento!


*Nathália Meireles é especialista em Marketing Digital, com foco em conteúdo direcionado para as áreas de Transformação Digital, Inovação e Marketing. Graduada pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), cursa pós-graduação em Marketing Digital e Transformações Empresariais na Universidade Cruzeiro do Sul. Acredita que a escrita tem o propósito de estimular a geração de insights valiosos e contribuir para a sociedade. Além disso, é a mente por trás do blog Dig. Insights Hub, em que atua como criadora e escritora.

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