Especialista alerta que adiar seleções estratégicas para conter custos gera sobrecarga e rotatividade; substituir um colaborador pode custar até 200% do seu salário anual
Em um cenário econômico de maior cautela e juros elevados, a busca por profissionais qualificados segue como uma das tarefas mais complexas para as organizações no Brasil. Segundo dados da Pesquisa de Escassez de Talentos do ManpowerGroup, 81% dos empregadores no país relatam dificuldades para encontrar a mão de obra necessária. A escassez acende um alerta para empresas que, ao tentarem enxugar despesas de curto prazo, optam por congelar processos seletivos ou sobrecarregar as equipes existentes.
A estratégia de contenção, porém, pode surtir o efeito oposto no caixa. Levantamento da Society for Human Resource Management (SHRM) aponta que o custo para substituir um profissional pode variar entre 50% e 200% de sua remuneração anual. A conta considera despesas com recrutamento, seleção, treinamento, integração e a perda de produtividade até que o novo contratado alcance o nível operacional desejado.
Para Marcelo Arone, CEO da OPTME — consultoria especializada em recrutamento executivo e desenvolvimento de lideranças —, a redução de custos focada na paralisia das equipes costuma ser um erro tático recorrente em momentos de incerteza econômica.
“É natural que os gestores procurem reduzir despesas quando o cenário inspira cautela. O problema é quando a economia acontece justamente na construção das equipes. Adiar uma contratação estratégica ou sobrecarregar profissionais que já estão no limite costuma gerar perda de produtividade, aumento do desgaste das lideranças e, muitas vezes, mais rotatividade”, enfatiza Arone.
Retenção estratégica e atração antecipada

Além de atrair profissionais preparados, o mercado atual exige estratégias sólidas para retenção. A permanência de talentos deixou de ser uma demanda exclusiva da área de Recursos Humanos para se tornar uma decisão de negócios ligada diretamente à inovação e à continuidade operacional.
O executivo destaca que aguardar a retomada econômica para voltar a contratar costuma elevar os custos de atração, já que a concorrência pelos mesmos perfis se intensifica, pressionando os salários.
“Empresas que crescem de forma consistente não contratam apenas para preencher vagas. Elas investem na formação de lideranças, desenvolvem sucessores e aproveitam momentos de menor aquecimento do mercado para atrair profissionais estratégicos. Quem espera o mercado aquecer para buscar talentos normalmente disputa os mesmos profissionais que todos os concorrentes”, pontua Arone.
Fatores decisivos na permanência de talentos
O comportamento dos profissionais em relação ao mercado de trabalho também passou por transformações. Além da remuneração financeira, a decisão de permanecer em uma empresa é influenciada pela clareza nas perspectivas de carreira, preparo das lideranças, ambiente de trabalho e coerência entre o discurso institucional e a rotina da organização.
“Hoje, os profissionais querem enxergar coerência entre discurso e prática. Cultura organizacional, lideranças preparadas e oportunidades reais de desenvolvimento deixaram de ser diferenciais. São fatores decisivos para atrair e reter talentos”, conclui Marcelo Arone.
Três sinais de que a empresa pode estar economizando no lugar errado
- Adiamento recorrente: postergar continuamente contratações classificadas como estratégicas para a operação;
- Falta de suporte em promoções: promover profissionais para cargos de gestão sem oferecer a capacitação necessária para as novas atribuições;
- Sobrecarga contínua: utilizar o aumento da carga de trabalho e o acúmulo de funções nas lideranças como solução permanente para conter custos.
