Estudo conduzido pela consultoria Heach Recursos Humanos e veiculado pelo portal Educa Mais Brasil aponta a complexidade na transição para o monitoramento de riscos psicossociais corporativos; afastamentos por transtornos mentais cresceram 15,6%
A entrada em vigor das atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) estabeleceu um novo paradigma na governança corporativa e no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) no Brasil. A legislação agora exige a obrigatoriedade de identificar, avaliar e monitorar de forma sistemática os fatores de risco psicossocial dentro do ambiente de trabalho. No entanto, a incorporação prática dessas exigências pelas empresas revela a dimensão do desafio técnico que o mercado enfrenta. Uma pesquisa abrangente realizada pela consultoria Heach Recursos Humanos com 1.730 organizações brasileiras apontou que 82% dos profissionais de Recursos Humanos admitem ainda não dominar totalmente o conjunto de mudanças trazidas pela nova norma.
A transição regulatória ocorre em um período de forte alta nos indicadores de adoecimento mental no ecossistema de negócios. Conforme dados consolidados pelo Ministério da Previdência Social, o país registrou a concessão de 546.254 benefícios previdenciários por incapacidade temporária motivados por transtornos mentais e comportamentais. O volume representa uma expansão de 15,6% sobre o consolidado do ano anterior, quando haviam sido homologados 472.328 afastamentos. Em paralelo, registros estatísticos da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), baseados no banco de dados do INSS, apontam que episódios depressivos agudos e o transtorno depressivo recorrente foram responsáveis por retirar de atividade mais de 182 mil trabalhadores.
Métricas preditivas e o papel estratégico da liderança
A nova arquitetura técnica da NR-1 exige que a gestão de saúde emocional deixe de ser tratada apenas como uma ação isolada ou assistencial, integrando-se formalmente ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) das companhias. As organizações passam a ter a responsabilidade legal de documentar métricas associadas a fatores organizacionais sensíveis, tais como a incidência de jornadas excessivas, sobrecarga de tarefas, conflitos interpessoais e a clareza nos fluxos de comunicação. Leandro Santos, executivo especialista e CSO da Indexmed, sinaliza que o cenário exige uma mudança de postura nas empresas. De acordo com o especialista, as lideranças precisarão cruzar dados de absenteísmo, rotatividade de pessoal (turnover), relatórios de planos de saúde e licenças médicas para diagnosticar focos de desgaste antes do agravamento clínico.
Mapeamentos complementares indicam que o comportamento da liderança é um dos fatores mais determinantes na modulação desse ambiente, exigindo treinamentos voltados para o manejo de pressões emocionais e mediação de conflitos. O descumprimento dos inventários de risco e a ausência de metodologias de escuta ativa expõem as corporações a sanções que variam de autuações administrativas e Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) até processos trabalhistas formais. Diante desse novo cenário legal, a capacidade de equilibrar a alta performance com a sustentabilidade e a saúde organizacional consolida-se como um fator estratégico indispensável para a produtividade e a segurança jurídica das empresas.
