Ao longo da minha trajetória atuando com desenvolvimento humano e estratégia em recursos humanos, eu passei a observar um padrão muito claro, independentemente do porte ou segmento da empresa: quando o crescimento não acontece, o problema raramente está no mercado. Ele está, quase sempre, dentro da própria organização.
É comum ver empresários dedicados, que trabalham muito, investem, buscam soluções, mas ainda assim sentem que a empresa não evolui no ritmo esperado. E, na prática, o que eu percebo é que a raiz desse problema está na produtividade — ou, mais especificamente, na forma como a produtividade é conduzida.
E aqui existe um ponto fundamental: produtividade não é trabalhar mais, é trabalhar com direção.
Muitas empresas operam com equipes ocupadas, mas não necessariamente produtivas. Existe movimento, mas não existe avanço real. E isso acontece porque falta clareza sobre o que realmente gera resultado.
Um dos principais gargalos que eu encontro nas empresas é a ausência de metas claras, bem definidas e acompanhadas. Quando as pessoas não sabem exatamente o que se espera delas, elas passam a atuar no modo automático, priorizando tarefas urgentes e operacionais, deixando de lado aquilo que realmente impacta o crescimento do negócio.
Sem direção, qualquer esforço se dispersa.
Outro ponto que, na minha visão, é um dos maiores fatores de travamento das empresas hoje é a liderança despreparada. Ao longo da minha carreira, eu vi muitos profissionais extremamente competentes tecnicamente serem promovidos para cargos de liderança sem o preparo necessário para gerir pessoas.
E liderar pessoas exige habilidade, método e consciência.
Quando a liderança não está preparada, o impacto é direto: falta de alinhamento, comunicação falha, insegurança no time, baixa autonomia e aumento de retrabalho. Além disso, muitos líderes acabam centralizando decisões, o que sobrecarrega a gestão e paralisa o desenvolvimento da equipe.
O resultado disso é um ambiente improdutivo, onde as pessoas fazem, mas não entregam no nível que poderiam.
Existe ainda um outro fator que eu considero crítico e que muitas empresas negligenciam: a incoerência entre o discurso e a prática.
Eu costumo dizer que cultura organizacional não é o que a empresa fala, é o que ela permite.
Muitas organizações dizem valorizar alta performance, comprometimento e protagonismo, mas toleram atrasos, falta de entrega, baixa responsabilidade e comunicação inadequada. Esse desalinhamento gera confusão, reduz o senso de responsabilidade e compromete diretamente a produtividade.
Porque, no fim do dia, as pessoas se orientam pelo que é permitido — não pelo que é comunicado.
Outro ponto que observo com frequência é a ausência de gestão de desempenho. Empresas que não acompanham indicadores, que não estruturam feedbacks e que não criam rituais de acompanhamento acabam operando no improviso.
E improviso não sustenta crescimento.
Sem indicadores claros, o empresário passa a tomar decisões com base em percepção, e não em dados. Sem feedback, as pessoas não sabem o que precisam melhorar. E sem acompanhamento, não existe evolução consistente.
Ao longo da minha experiência, ficou muito evidente para mim que produtividade não é responsabilidade exclusiva do colaborador. Ela é, principalmente, reflexo da forma como a empresa é conduzida.
Empresas que crescem de forma sustentável têm algo em comum: clareza estratégica, liderança preparada, cultura alinhada e disciplina na execução.
Crescimento não é sorte, nem acaso. É construção.
E essa construção passa, necessariamente, pela forma como as pessoas são direcionadas, desenvolvidas e acompanhadas dentro da organização.
Se a sua empresa não está crescendo, talvez o problema não esteja fora, mas dentro.
E essa é uma boa notícia.
Porque quando a gestão de pessoas passa a ser tratada de forma estratégica, a produtividade aumenta, o desempenho evolui e o crescimento deixa de ser uma expectativa distante — e passa a ser consequência de um trabalho bem estruturado.
Se você se identificou com esse cenário, talvez seja o momento de olhar para dentro da sua empresa com mais estratégia e menos urgência. Crescimento não acontece por acaso — ele é construído, principalmente, a partir da forma como as pessoas são conduzidas.

Akemi Shida é psicóloga do trabalho, especialista em Desenvolvimento Humano e Organizacional e saúde mental corporativa, sendo também cofundadora do Projeto Mulher Pro. Possui sólida trajetória em Recursos Humanos, com atuação em grandes organizações como Rede Globo, Itaú Unibanco, Grupo Pão de Açúcar e FTD Educação, onde desenvolveu pessoas, líderes e carreiras de sucesso por meio de projetos de treinamento e desenvolvimento, liderança, clima organizacional e desempenho.
Construiu parte de sua carreira em Angola, atuando em projetos de desenvolvimento organizacional e formação de lideranças em contextos multiculturais. É fundadora da AS Consultoria em Saúde Mental Corporativa, onde apoia empresas na implementação das diretrizes da NR-01, no diagnóstico de riscos psicossociais e na construção de ambientes de trabalho saudáveis, produtivos e sustentáveis. Possui 5 livros publicados, acredita que desenvolver pessoas é a base para resultados consistentes e negócios perenes.

