Enquanto organizações investem bilhões em IA, pesquisas do MIT e de Harvard mostram que o maior obstáculo para a transformação continua sendo humano.
Saí do cinema ontem com a impressão de que Toy Story 5 está sendo vendido como um filme sobre brinquedos quando, na realidade, discute algo muito mais próximo das preocupações que hoje ocupam conselhos de administração, salas de reunião e mesas de pais que observam seus filhos crescerem em um mundo radicalmente diferente daquele em que foram criados.
Para compreender a discussão proposta pela Pixar, é importante lembrar quem é Bonnie. Ela é a menina que recebe Woody, Buzz Lightyear e os demais brinquedos das mãos de Andy ao final de Toy Story 3. A transição parecia simples quando vista apenas como um movimento narrativo. Com o passar dos anos, no entanto, ela se transformou numa metáfora poderosa. Andy representava uma infância construída pela imaginação livre, pelas brincadeiras físicas e por uma relação menos mediada pela tecnologia. Bonnie passa a simbolizar uma geração que cresce cercada por telas, conectividade permanente e novas formas de interação social.
É a partir dessa mudança de contexto que Toy Story 5 encontra sua principal força. O filme não está interessado em discutir brinquedos. Está interessado em discutir transformação. Mais especificamente, a forma como indivíduos, famílias e instituições reagem quando percebem que o mundo ao seu redor mudou mais rápido do que sua capacidade de compreendê-lo.
Bonnie atravessa uma fase marcada pela busca de pertencimento. Seus pais observam esse processo com a mesma preocupação de milhões de famílias contemporâneas e recorrem àquilo que se tornou quase uma resposta automática para os desafios da modernidade: a tecnologia. A decisão é compreensível. Se a vida social das novas gerações acontece cada vez mais em ambientes digitais, parece razoável acreditar que uma ferramenta tecnológica possa facilitar integração, amizade e conexão.
A narrativa demonstra, contudo, que existe uma diferença importante entre criar acesso e produzir pertencimento. O tablet amplia possibilidades, mas não resolve sua insegurança. Facilita interações, mas não substitui o processo de construção de identidade. A tecnologia modifica o ambiente onde a experiência acontece, mas não elimina a necessidade de amadurecimento que acompanha qualquer trajetória humana.
É justamente nesse ponto que a discussão deixa o universo da animação e passa a dialogar diretamente com o mundo corporativo. Afinal, não é exatamente isso que inúmeras organizações vêm fazendo na corrida pela inteligência artificial? Empresas anunciam investimentos bilionários, implementam plataformas, automatizam processos e aceleram iniciativas de digitalização acreditando que a tecnologia produzirá inovação, colaboração e vantagem competitiva. O problema é que esses resultados raramente são consequência direta da ferramenta. Eles dependem da capacidade de preparar pessoas, desenvolver lideranças e construir uma cultura capaz de absorver a transformação.
Nesse sentido, os pais de Bonnie e muitos executivos estão cometendo o mesmo erro: depositam sobre a tecnologia expectativas que pertencem ao campo da maturidade humana.
Entre todos os personagens da narrativa, é Jessie, a vaqueira introduzida em Toy Story 2, quem melhor representa o conflito central do filme. Diferentemente de Woody, que já atravessou diferentes ciclos de mudança ao longo da franquia, Jessie observa a transformação de Bonnie com um olhar quase intuitivo. Ela percebe o aumento da solidão, a diminuição das interações genuínas, a substituição da imaginação por estímulos prontos e a perda gradual de elementos que sempre fizeram parte da experiência humana, como criatividade, afeto, pertencimento e conexão emocional.
Sua conclusão inicial, entretanto, é equivocada. Ao observar Bonnie dedicar cada vez mais atenção ao universo digital, Jessie passa a acreditar que a tecnologia é a responsável pelo problema. Sua reação é compreensível. Afinal, aquilo que durante anos ocupou o centro da vida da menina passa a disputar relevância com uma nova forma de interação. O erro da personagem é o mesmo que observamos em inúmeras organizações diante de uma ruptura tecnológica: confundir a ferramenta com a causa da transformação.
O que Jessie ainda não compreende naquele momento é que a mudança não começou com a tecnologia. Ela começou com Bonnie. A transformação acontece primeiro na pessoa e somente depois nas ferramentas que ela escolhe utilizar. Essa distinção é fundamental porque boa parte das discussões sobre inteligência artificial continua concentrada na tecnologia quando, na verdade, a transformação mais profunda está ocorrendo no comportamento humano.
Essa é, ao meu ver, a contribuição mais sofisticada de Toy Story 5. O filme se recusa a construir uma narrativa simplista na qual existe um vilão claramente identificado. A tecnologia não aparece como inimiga da criatividade. Os brinquedos também não são apresentados como símbolos de um passado idealizado que deveria ser preservado a qualquer custo. A Pixar compreende que o verdadeiro conflito não ocorre entre inovação e tradição. O conflito ocorre quando qualquer um dos lados acredita que pode existir sem o outro.
A mesma tensão pode ser observada em praticamente todas as empresas que atravessam processos de transformação digital. Enquanto uma parte da organização enxerga a inteligência artificial como solução para todos os problemas, outra a percebe como ameaça. Executivos anunciam investimentos bilionários, áreas inteiras são reorganizadas e uma nova linguagem corporativa passa a dominar apresentações, reuniões e planejamentos estratégicos. A velocidade da implementação, entretanto, raramente é acompanhada pela mesma profundidade na preparação das pessoas que terão de conviver com essas mudanças.
Os números ajudam a compreender essa contradição. Pesquisas amplamente debatidas pelo MIT Sloan apontam que a maioria das iniciativas corporativas de inteligência artificial generativa ainda não consegue produzir impacto financeiro mensurável. O problema raramente está na qualidade da tecnologia. Está na dificuldade das organizações de integrarem essas ferramentas aos seus processos, comportamentos e modelos de gestão. Estudos publicados pela Harvard Business Review chegam a conclusões semelhantes ao demonstrar que os principais obstáculos à adoção bem-sucedida da inteligência artificial estão relacionados à cultura organizacional, à liderança, à confiança e à gestão da mudança.
Em outras palavras, a dificuldade não está em ensinar uma máquina a operar. A dificuldade está em preparar seres humanos para trabalhar, decidir, colaborar e liderar de uma maneira diferente.
É justamente nesse ponto que Bonnie deixa de ser apenas uma personagem infantil e se transforma numa metáfora poderosa para o mundo corporativo. O desafio que ela enfrenta não é tecnológico. É humano. Ela busca pertencimento, identidade e conexão em um ambiente que muda rapidamente ao seu redor. A tecnologia modifica a forma como essa busca acontece, mas não elimina sua complexidade.
Dentro das empresas ocorre exatamente o mesmo fenômeno. Muitas organizações estão investindo fortunas em ferramentas de inteligência artificial acreditando que elas produzirão, por si só, inovação, colaboração e vantagem competitiva. Poucas dedicam a mesma energia à construção de uma cultura capaz de absorver essas transformações. Ainda menos investem na preparação emocional e comportamental de suas lideranças para conduzir esse processo. O resultado costuma ser previsível: a tecnologia evolui em velocidade muito superior à capacidade da organização de adaptar seus comportamentos, seus modelos de decisão e sua cultura.
Por isso, a discussão mais relevante proposta por Toy Story 5 não está relacionada à tecnologia, mas à maturidade. A maturidade de Bonnie para compreender a fase que está vivendo. A maturidade de Jessie para perceber que adaptação não significa abandono. A maturidade da própria tecnologia ao reconhecer que eficiência não é sinônimo de conexão humana.
Como executivo de RH e especialista no desenvolvimento de diretores e presidentes em diferentes países, minha principal reflexão ao final do filme foi simples. O futuro não será definido pelas organizações que simplesmente adotarem mais tecnologia. Será definido por aquelas capazes de construir uma ponte consistente entre experiência e inovação, entre repertório humano e inteligência artificial, entre transformação digital e transformação cultural.
Toy Story 5 fala muito menos sobre brinquedos do que aparenta. Sua verdadeira discussão está na forma como indivíduos e organizações lidam com a inevitabilidade da mudança. Algumas tentam combatê-la. Outras acreditam que podem acelerá-la indefinidamente. Ambas ignoram que transformações duradouras não acontecem quando substituímos o passado pelo futuro, mas quando adquirimos maturidade suficiente para integrar os dois.
É exatamente essa maturidade que falta a Bonnie no início da história. É exatamente essa maturidade que falta a Jessie. E, observando a maneira como muitas organizações estão conduzindo sua corrida pela inteligência artificial, é difícil não concluir que essa também continua sendo uma das maiores carências do mundo corporativo contemporâneo.

Executivo de RH e Coach Executivo de diretores, VP’s e CEO’s de empresas nacionais e multinacionais, atendendo clientes em 13 países. Foi executivo de RH de uma das maiores empresas de bens de consumo do país, já desenvolveu mais de 38.000 profissionais ao longo dos seus 24 anos de carreira. Formado em Relações Públicas pela PUCCAMP, pós-graduado em Consultoria de Carreira pela FIA/USP e com 5 certificações internacionais em PNL e Coaching Integrado. Marcos é referência em Carreira e Gestão em veículos como: Valor Econômico, InfoMoney, G1, Yahoo Finance, Globo/EPTV, SBT, Você S/A, TV Bandeirantes, Nova Brasil FM, Carreira & Negócios entre outras, tendo mais de 120 matérias publicadas.
