Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão…
Todo artista tem de ir aonde o povo está
Se foi assim, assim será
Cantando me desfaço e não me canso de viver, nem de cantar
(“Nos bailes da vida” – Milton Nascimento e Fernando Brant)
Viver de arte é o sonho de muitos e privilégio de poucos… será que dá para pensar nisso numa época em que a cultura sofre tantos ataques e desvalorização das “instituições” do poder?
Fazer arte é traduzir o próprio tempo, criando holofotes sobre justiça, equilíbrio, pobreza, opressão, amor, solidão, morte e vida. Fazer arte é um ato político, logo, visto como ameaça constante ao establishment…
No Brasil temos um rico legado étnico regional, que motiva milhões de fazedores de arte procurarem seu espaço profissional; a despeito disso ainda não conseguimos fazer a economia criativa ser vista como relevante segmento econômico – esta mensuração tem seus desafios em particular na classe artística, formada por empreendedores individuais, muitos atuando na informalidade.
Estima-se que a economia criativa onde se incluem as atividades de dança, música, teatro, cinema, literatura, artes plásticas, moda, design, represente 3,1 % do PIB e empregue cerca de 7 milhões de pessoas (cinco vezes mais que a indústria automobilística).
Mas o que é preciso para viver de arte?
Considero três fatores principais: o primeiro é ter talento – o dom natural, a propensão e habilidades do corpo e da mente nascem conosco, e são a pedra bruta a ser lapidada – artistas sem talento irão enfrentar muitas dificuldades para achar seu profissional nessa seara.
O segundo fator é o desejo de trabalhar com arte. O talento em si não representa nada se não for desenvolvido – isso se faz com formação, treino, experimentação, e há que ter muita convicção e vontade de investir tempo, dinheiro e esforços no desenvolvimento das técnicas e habilidades que podem fazer transformar o talento ao nível do profissionalismo.

O terceiro fator, que a meu ver empaca muitas carreiras culturais, é o entendimento do mercado. O empreendedor cultural precisa se reconhecer como empresário do próprio talento, estabelecer posicionamento cultural e mercadológico, compreendendo seus diferenciais e limites, identificando segmentos de cientes, conhecer como pensam e consomem. Demanda também outras habilidades de comunicação, venda, atendimento, e gestão financeira (custos, planejamento orçamentário e gestão de fluxo de caixa), virtudes cartesianas que nem sempre encontramos nos profissionais da criatividade…
E é possível viver de arte?
Conheço muitos artistas que vivem exclusivamente de suas criações no artesanato e artes plásticas, de suas habilidades teatrais e musicais, de seu talento na dança, moda, cinema, design – certamente todos passam os mesmos perrengues de qualquer empreendedor na busca seus espaços, com o desafio extra da arte não ser uma commodity que todos necessitam. Muitos iniciam atividade profissional artística como segunda renda (o meu caso), o que traz desafios existenciais de como aperfeiçoar o talento e ganhar dinheiro ao mesmo tempo.
Nessa jornada de artista, enfrentamos crises de identidade (Somos bons o bastante? Receberei aplausos? Isso realmente me define? Faz sentido?), ou lapsos criativos, quando compreendemos que nossos clientes preferem o “mais do mesmo”, ou reconhecemos atender nichos tão pequenos que não garantem o pagamento mínimo dos custos de nossa operação. E o dilema de qualquer empreendedor vem… quanto tempo e dinheiro vamos investir nesse sonho de “viver de arte”??
Ainda sofremos o preconceito de uma sociedade que não julga arte um “trabalho sério”, ou nos rendemos ao “entretenimento utilitário” – produzimos o que a mídia diz para produzirmos. E temos a “concorrência” de quem nem tem talento nem faz o esforço – por exemplo, pessoas que cantam com playback e se autodenominam músicos, ou quem pinte panos de prato e se enxergue artesão(ã)…arte não é entretenimento, é criação – quando paramos de criar, repetindo as “velhas roupas coloridas”, morremos como artistas. A essência criativa é o que faz o/a artista ser quem ele/ela é…
Ou seja, viver de arte demanda maturidade e autocrítica, para lidar com as instabilidades de ganho, a correta avaliação de nossos talentos, as sutilezas do segmento consumidor, ainda assim, milhões de pessoas no mundo inteiro vivem da música, moda, dança, fotografia, literatura, criação culinária, cinema, teatro, pintura, design, grafite, artesanato, fazendo da economia criativa uma realidade.

Empreendedor social, consultor empresarial, educador e músico, pai da Mariana e cidadão de Atibaia. Possui mais de 40 anos de trajetória profissional transitada entre o meio corporativo e o terceiro setor. Atualmente é dirigente da ONG Mater Dei de Atibaia-SP e violonista do grupo Eclético Musical.

