Informar e garantir compreensão são coisas diferentes, e a maioria das lideranças ainda não percebeu isso
A Inteligência Artificial escreve o e-mail, resume a reunião e monta a apresentação, mas o que ela não faz é garantir que o time entendeu o que precisa ser feito com clareza. Essa função ainda faz parte do trabalho do líder, que nem sempre consegue se fazer entender.
O problema não é novo, mas ficou mais visível com o avanço das ferramentas. Segundo o relatório State of Organizations 2026 da McKinsey, 72% dos líderes dizem que suas organizações não conseguem executar os planos que aprovaram. A dificuldade, portanto, não está apenas na estratégia e, sim, na forma como ela é compreendida dentro das empresas. Para a fonoaudióloga Juliana Algodoal, especialista em comunicação corporativa e linguagem no trabalho, o principal desafio aqui não é tecnológico, mas humano. “As ferramentas de comunicação evoluíram muito rápido e a compreensão, não. Hoje, a maior falha dentro das empresas não é formular estratégia, é fazer o time entender o que precisa ser feito“, afirma.
Apesar da percepção comum de que existe “informação demais”, Juliana faz uma distinção importante: o problema não está apenas no volume, mas na forma desorganizada como as mensagens chegam. “Com a chegada da IA nas rotinas corporativas, esse problema ficou mais evidente. Quando a mesma informação vem por vários canais, como e-mail, WhatsApp, Teams, Google Meet,etc., isso aumenta a pressão e fragmenta a atenção. O que mais sobrecarrega hoje não é a informação em si, mas as interrupções constantes e o excesso de trabalho”, explica.
Ela aponta ainda que práticas comuns, como incluir múltiplas pessoas em cópia sem necessidade de ação, reforçam a sensação de desorganização e dificultam a priorização. “A falha não é de intenção, mas, sim, de linguagem e no centro do problema está uma confusão recorrente nas lideranças de acreditar que comunicar equivale a garantir entendimento. Ser entendido é diferente, exige perceber que há alguém específico do outro lado, com especificidades que precisam ser respeitadas“, explica.
Na prática, de acordo com a especialista, o erro mais comum entre líderes de todos os níveis hierárquicos é falar da mesma forma com todas as pessoas, áreas e funções dentro de uma empresa. “Líderes planejam a fala como se fosse para eles mesmos, sem ajustar para quem vai ouvir. Falam economês para não economistas. São prolixos justamente porque tentam se fazer entender, mas produzem o efeito contrário“, diz.
O custo desse gap é mensurável. Pesquisa da Grammarly com o The Harris Poll estimou em até US$ 1,2 trilhão por ano as perdas das empresas americanas causadas por comunicação ineficiente, o equivalente a US$ 12.506 por funcionário, anualmente. No Brasil, a lacuna é ainda mais evidente. Levantamento de 2025 da Ação Integrada com 2.200 gestores aponta que 70% dos líderes acreditam ser o principal canal de comunicação com seus times. Do lado das áreas de comunicação interna, apenas 17% confirmam essa percepção.
Para Juliana, a solução passa por um conjunto de práticas concretas: planejar o que vai ser dito com antecedência, calibrar a linguagem para o interlocutor, usar a voz para transmitir intenção e verificar o entendimento com perguntas ao final. “O cérebro gosta de economizar energia. Quanto mais fácil for entender, mais rápido o time age. Clareza não é virtude de comunicação, é estratégia de gestão“, afirma.

Juliana Algodoal: Considerada uma das maiores especialistas em Comunicação Corporativa do país, Juliana Algodoal é PhD em Análise do Discurso em Situação de Trabalho – Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem e fonoaudióloga pela PUC/SP e fundadora da empresa Linguagem Direta. Ao longo de 37 anos de carreira, Juliana já apoiou quase 11 mil profissionais tendo como foco nos últimos seis anos a alta liderança. Com o desenvolvimento de projetos que buscam aprimorar a interlocução no ambiente empresarial, já atuou para a BASF, Porto Seguro, Novartis, Pfizer, Aché, Itaú, Citibank, Unimed Nacional, Samsung, dentre outras. É coautora do livro Thought Leadership: muito além da influência e membro do conselho de administração da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, que também já presidiu.
