Levantamento da Heach Recursos Humanos revela que 69,4% dos profissionais já buscaram novo emprego em segredo e quase metade admite simular ocupação para evitar sobrecarga de tarefas
Uma fatia expressiva das condutas e hábitos diários dos profissionais brasileiros permanece totalmente fora do alcance dos relatórios formais de RH, sistemas de acompanhamento e indicadores corporativos. Estudo nacional realizado pela Heach Recursos Humanos com 2.487 trabalhadores mostra que 86,5% dos entrevistados admitem praticar ao menos uma conduta que não chega ao conhecimento do empregador.
Intitulado A Vida Secreta do Trabalhador Brasileiro, o levantamento expõe um descompasso estrutural de transparência na relação entre contratantes e colaboradores. A conduta mais frequente envolve a movimentação no mercado de trabalho: 69,4% dos profissionais (1.726 pessoas na amostra) afirmam já ter buscado um novo emprego sem comunicar à empresa atual, enquanto 54,7% participaram de entrevistas de seleção durante o horário de expediente.
O impacto direto das rotinas sobre a produtividade e a gestão do tempo também ganhou destaque. Para 66,8% dos participantes, resolver demandas pessoais durante a jornada de trabalho já fez parte da rotina diária. Além disso, 51,2% disseram estar trabalhando enquanto realizavam atividades particulares, e 48,6% admitiram já ter simulado estarem ocupados para evitar receber novas demandas operacionais.
Confiabilidade, dados sensíveis e a zona invisível da gestão
A pesquisa investigou ainda pontos mais sensíveis das rotinas corporativas, revelando fragilidades na relação de confiança mútua:
- Faltas e Justificativas: 39,7% disseram já ter inventado ou exagerado justificativas para atrasos e ausências.
- Uso de Atestados: 33,6% relataram ter apresentado atestado médico mesmo considerando que tinham condições normais de trabalhar.
- Dados no Currículo: 29,4% reconhecem já ter omitido, alterado ou exagerado informações profissionais em seus currículos.
Para Elcio Teixeira, CEO da Heach Recursos Humanos, a análise dos dados exige cautela para não transformar diferentes tipos de condutas em meras transgressões morais, identificando, em vez disso, falhas de liderança e escuta ativa:
“As empresas conhecem muito sobre seus funcionários do ponto de vista cadastral e contratual, mas sabem muito pouco sobre a relação cotidiana e real entre o indivíduo e o trabalho. Quando 86,5% dos profissionais reconhecem ao menos uma conduta fora do radar, a questão central é a dimensão dessa zona invisível. A resposta a essa distância não deve ser simplesmente vigiar mais ou ampliar controles operacionais, mas sim compreender cultura, liderança, dimensionamento de carga de trabalho e o nível de confiança das equipes.”
O levantamento reforça que indicadores pautados puramente em disponibilidade presencial ou tempo de conexão oferecem uma leitura incompleta do desempenho real das equipes, exigindo novos arranjos de governança e clima organizacional.
