Setembro Amarelo sempre me traz uma reflexão: se saúde mental é um tema tão urgente na sociedade, por que ainda é tratada como periférica dentro de tantas empresas? Não falo apenas de discursos bonitos, campanhas internas ou palestras de uma hora. Falo de estratégia de negócio.

Dados do INSS mostram que transtornos mentais já estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil. A Organização Mundial da Saúde estima que depressão e ansiedade custam à economia global mais de 1 trilhão de dólares por ano em perda de produtividade. É um número tão absurdo que, se fosse uma empresa, estaria entre as maiores do mundo.

E aqui está a polêmica: muitas empresas preferem arcar com o custo do adoecimento do que investir na prevenção.

O custo do silêncio

A cada vez que um colaborador adoece, os impactos se espalham: sobrecarga de colegas, queda no engajamento, perda de talentos estratégicos, processos trabalhistas, imagem de marca comprometida. Mas o maior custo é invisível: o silêncio.
Funcionários que não se sentem seguros para falar sobre sofrimento mental produzem menos, se desconectam do propósito e, aos poucos, deixam de acreditar na empresa.

ROI da saúde mental

A OMS já demonstrou: cada R$ 1 investido em programas de promoção da saúde mental retorna R$ 4 em produtividade. Mesmo assim, ainda escuto executivos dizerem: “não temos orçamento para isso”.
A provocação é: quanto custa não investir? Custa turnover, absenteísmo, presenteísmo, acidentes de trabalho e, em última instância, lucros mais baixos.

ESG e a incoerência corporativa

Outra contradição que me incomoda é ver empresas anunciando ações sustentáveis enquanto negligenciam o “S” de ESG internamente. Não adianta plantar árvores se dentro da empresa se cultivam jornadas abusivas, assédio e sobrecarga.
Sustentabilidade começa dentro de casa. O bem-estar dos colaboradores é o alicerce para qualquer discurso de responsabilidade social.

O suicídio corporativo

Setembro Amarelo fala sobre prevenção ao suicídio, mas eu arrisco dizer: muitas empresas estão em processo de “suicídio corporativo” quando ignoram a saúde mental de suas pessoas. Ao tratar colaboradores como peças descartáveis, destroem inovação, engajamento e reputação.
E nesse caminho, perdem muito mais do que talentos: perdem credibilidade.

Para onde devemos olhar

Prevenção não é só dar acesso a psicólogos, embora isso seja importante. É também rever práticas de gestão, metas, comunicação e cultura. É criar ambientes onde vulnerabilidade não seja vista como fraqueza, mas como parte da humanidade.
Se saúde mental continuar sendo vista apenas como “tema de RH”, nunca será tratada como parte da estratégia.

Setembro Amarelo é um convite para repensarmos negócios sob uma ótica que vai além do lucro imediato. Empresas que cuidam da saúde mental cuidam do seu ativo mais valioso: as pessoas. E empresas que cuidam de pessoas criam resultados sustentáveis no longo prazo.

Porque, no fim das contas, não há empresa saudável sem pessoas saudáveis.

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