Durante muitos anos, o desengajamento foi tratado como um problema subjetivo. Algo atribuído à falta de motivação individual, ao perfil do colaborador ou às mudanças geracionais. Em 2025, essa leitura começou a perder força. E, a partir de 26 de maio de 2026, ela se torna definitivamente insuficiente. O motivo é claro: quando falta engajamento, sobra passivo — inclusive financeiro e legal.
Os números ajudam a dimensionar o problema. O desengajamento custa bilhões às empresas brasileiras todos os anos por meio da queda de produtividade, aumento de erros, retrabalho, absenteísmo, afastamentos por transtornos mentais e rotatividade silenciosa. O chamado quiet quitting não aparece nos relatórios contábeis, mas compromete resultados, clima organizacional e sustentabilidade do negócio.
O ponto central é que o desengajamento raramente surge de forma isolada. Ele é consequência direta de ambientes mal geridos, lideranças despreparadas, metas desconectadas da realidade, comunicação falha e ausência de escuta. Antes de o colaborador se desligar emocionalmente, a organização normalmente já ignorou sinais claros de alerta.
É nesse contexto que a discussão deixa de ser apenas comportamental e passa a ser regulatória. A Norma Regulamentadora nº 01 (NR-01), que trata do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, reconhece de forma objetiva os riscos psicossociais como parte do ambiente de trabalho. Sobrecarga excessiva, pressão contínua, conflitos mal conduzidos, assédio, falhas de comunicação e ausência de apoio da liderança deixam de ser vistos como questões subjetivas e passam a integrar o mapa de riscos das empresas.
O ponto de atenção, que muitos empresários ainda subestimam, é o prazo. A partir de 26 de maio de 2026, as empresas que não tiverem identificado, avaliado e implementado medidas de controle para os riscos psicossociais estarão sujeitas à autuação e aplicação de multas pelos órgãos de fiscalização do trabalho.
As penalidades variam conforme o porte da empresa, o número de empregados, a gravidade da infração e a reincidência. As multas por descumprimento da NR-01 são calculadas conforme a NR-28, podendo resultar em autos de infração por diferentes obrigações descumpridas, com valores variáveis conforme o porte da empresa, a gravidade e a reincidência. Em fiscalizações com múltiplas não conformidades, as penalidades podem se acumular, alcançando a casa de dezenas de milhares de reais e, a depender do número de autos, da gravidade e de agravantes como reincidência, podem ultrapassar R$ 100 mil. Esse valor não inclui outros custos relevantes, como ações trabalhistas, indenizações por danos morais, afastamentos pelo INSS, impacto no Fator Acidentário de Prevenção (FAP), aumento de encargos e danos à reputação da empresa.
Ou seja, o passivo não é apenas humano. Ele é financeiro, jurídico e estratégico.
Um erro recorrente é acreditar que cumprir a NR-01 se resume a aplicar questionários ou realizar ações pontuais. A norma não exige diagnóstico clínico nem rotulagem de pessoas. Ela exige gestão real do trabalho, análise de processos, revisão da atuação das lideranças e medidas efetivas de prevenção.
Quando o engajamento cai, o ambiente já está adoecendo. Metas inalcançáveis, acúmulo de funções, líderes despreparados para dar feedback, conflitos ignorados e silêncio organizacional não são apenas problemas de clima. São indicadores objetivos de risco psicossocial e, agora, também de passivo legal.
Encerrar 2025 com essa reflexão é estratégico. 2026 exigirá das empresas uma postura mais madura, preventiva e integrada entre gestão de pessoas, liderança e conformidade legal. Engajamento deixou de ser diferencial competitivo. Tornou-se indicador de saúde organizacional e responsabilidade empresarial.
No próximo ano, a pergunta não será mais como motivar pessoas, mas o que, na forma de gerir, está gerando risco, custo e exposição. Quem entender isso antes de maio de 2026 se antecipa. Quem ignorar, paga a conta.

Akemi Shida é diretora Geral da AS Consultoria de Recursos Humanos e possui mais de 18 anos de experiência em empresas como Itaú, Globo e FTD Educação. Psicóloga por formação, possui MBA em Gestão Estratégica de Negócios e pós-graduação em Psicodrama Sócio Educacional, além de formação em coaching executivo, life coaching e career coaching pelo Integrated Coaching Institute.
Especialista em liderança, planejamento de carreira, desenvolvimento humano e organizacional, atua como trainer e palestrante pela Abrain – Academia Brasileira de Inteligência. É master trainer pelo Instituto Mentor Coach e foi uma das profissionais de RH responsáveis pela primeira
certificação ISSO 9001 no continente africano, em Angola. Palestrante e escritora, é coautora de três livros: “A Arte de Brilhar”, “Desperte sua Melhor Versão” e “120 Sacadas para a vida pessoal e profissional”.

