Tenho conversado com empresários e profissionais de diferentes setores e uma percepção aparece com frequência: parece que a economia está parada. Decisões são adiadas, investimentos são analisados com mais cautela e existe aquela sensação de que todo mundo está esperando alguma coisa acontecer para, então, se movimentar.

Mas será que a economia realmente parou?

Quando olho para os números, encontro uma realidade bem mais complexa. Segundo dados oficiais do Novo Caged, divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o Brasil registrou saldo positivo de 921,6 mil empregos formais no primeiro semestre de 2026.

Então, se há empresas contratando, pessoas trabalhando e negócios acontecendo, por que parece que está todo mundo esperando?

Talvez estejamos vivendo o que eu chamaria de uma “economia da espera”.

Não utilizo essa expressão como um conceito econômico formal, mas como uma maneira de traduzir um comportamento que tenho observado. O consumidor espera uma promoção melhor. Espera a Black Friday. Espera ter mais segurança antes de assumir uma nova parcela. O empresário espera o consumo reagir, os juros melhorarem, os custos diminuírem ou o cenário ficar mais claro antes de investir.

E existe um setor em que essa contradição me chama particularmente a atenção: logística e transporte.

Segundo o Índice CNT de Confiança do Transportador Rodoviário de Cargas, divulgado pela Confederação Nacional do Transporte, os transportadores pesquisados continuam demonstrando cautela diante do cenário econômico. No primeiro semestre de 2026, o indicador permaneceu abaixo da linha de 50% nos cinco estados avaliados, patamar que representa falta de confiança.

Isso significa que o empresário do transporte também está olhando para o futuro com cautela.

Só que existe um detalhe: a mercadoria não espera.

Enquanto existe insegurança para investir, o comércio eletrônico continua crescendo. Dados da Confi/Neotrust mostram que o e-commerce brasileiro faturou R$ 208,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, crescimento de 16,9% em relação ao mesmo período de 2025.

O número que mais me chama a atenção, porém, não é o faturamento.

É o volume.

Foram 756,7 milhões de pedidos nos primeiros seis meses do ano, crescimento de 34,8%.

Para quem trabalha com logística, isso significa muito mais do que consumidores clicando no botão “comprar”.

Significa produto para separar. Pedido para conferir. Estoque para movimentar. Embalagem para preparar. Carga para expedir. Caminhão para programar. Rota para organizar. Motorista para conduzir. Prazo para cumprir. Cliente para atender.

E pessoas para fazer tudo isso acontecer.

Para o segundo semestre, o mesmo estudo da Confi/Neotrust projeta crescimento de 20% no faturamento do comércio eletrônico em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionado também pela Black Friday e pelo Natal.

É aqui que faço uma pergunta às empresas de logística e transporte:

se o consumidor está esperando a Black Friday para comprar, sua operação pode esperar novembro para se preparar?

Eu acredito que não.

Setembro talvez seja justamente o momento de olhar para novembro e dezembro.

E não estou falando apenas de frota, tecnologia, armazém ou capacidade operacional. Estou falando principalmente de pessoas.

Quantos profissionais serão necessários para suportar o aumento do volume? Onde estão os gargalos da operação? Será necessário contratar temporários? Quanto tempo um novo profissional precisa para estar realmente preparado? Quem fará a integração? Os líderes estão preparados para receber equipes maiores? Os turnos estão dimensionados corretamente?

Na minha experiência trabalhando com Recursos Humanos, vejo que muitas empresas ainda tratam contratação como uma etapa isolada: surge a necessidade, abre-se uma vaga e começa o recrutamento.

Em logística e transporte, especialmente nos períodos de pico, essa lógica pode custar caro.

Porque não basta contratar.

É preciso contratar no momento certo, integrar rapidamente, treinar para a operação e preparar a liderança que receberá essas pessoas.

Uma contratação feita às pressas pode significar aumento de turnover, absenteísmo, baixa produtividade e erros justamente quando a operação está trabalhando no limite.

E existe algo ainda mais importante: em logística, um problema de pessoas rapidamente pode se transformar em um problema para o cliente.

Um profissional mal integrado pode gerar um erro de separação. Uma equipe sobrecarregada pode comprometer a expedição. Uma liderança despreparada pode aumentar conflitos e afastamentos. Uma operação sem dimensionamento adequado pode atrasar entregas.

E aquilo que começou como um problema de gestão de pessoas termina como problema de negócio.

Por isso, defendo que RH, operação e estratégia precisam conversar antes do pico, e não durante o pico.

A preparação para Black Friday e Natal não deveria começar quando os pedidos aumentam. Deveria começar quando ainda existe tempo para perguntar: temos as pessoas certas? Nossos líderes estão preparados? Precisaremos contratar? Precisaremos treinar? Onde estão nossos riscos?

O crescimento do e-commerce também traz outra reflexão. Se o volume de pedidos cresce mais rapidamente do que o valor médio das compras, como mostram os dados da Confi/Neotrust, a eficiência logística se torna ainda mais relevante. Mais pedidos significam mais movimentações, mais entregas e maior pressão sobre produtividade e custo.

Talvez seja justamente por isso que o setor de logística e transporte traduza tão bem o momento que estamos vivendo.

Existe cautela. Existe incerteza. Existe espera.

Mas existe movimento.

Caminhões continuam rodando. Centros de distribuição continuam operando. Pedidos continuam chegando. Empresas continuam precisando de pessoas.

Por isso, para mim, prudência e paralisia são coisas completamente diferentes.

Prudência é olhar os números, proteger o caixa, dimensionar a operação, revisar custos e tomar decisões mais conscientes.

Paralisia é esperar que todas as respostas apareçam antes de agir.

E talvez a pergunta para este momento não seja apenas “quando a economia vai voltar a acelerar?”, mas uma outra, que considero muito mais estratégica:

O que estamos fazendo enquanto esperamos?

Porque, enquanto algumas empresas aguardam o cenário melhorar, outras estão preparando suas operações, desenvolvendo seus líderes, planejando contratações e capacitando suas equipes para aquilo que vem pela frente.

E deixo uma pergunta especialmente para quem atua em logística e transporte:

Quando o consumidor decidir parar de esperar e apertar o botão “comprar”, sua empresa estará preparada para entregar?

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