Até 70% do engajamento de um time está nas mãos do gestor direto; a falta de preparo reflete em queda de confiança, eficiência e previsibilidade operacional

A coerência organizacional permanece como um dos desafios mais complexos para as empresas brasileiras em 2026, especialmente quando se observa um distanciamento entre os valores comunicados institucionalmente e o que é praticado no cotidiano das equipes. Esse desalinhamento está diretamente ligado à atuação das lideranças, que funcionam como o elo vital para traduzir a estratégia em decisões concretas. Quando essa mediação falha, o descompasso entre discurso e prática fragiliza a cultura interna e compromete a confiança dos colaboradores.

Pablo Funchal, CEO da Fluxus — consultoria especializada em transformação organizacional com foco no alinhamento entre estratégia, cultura e execução —, explica que a ausência de uma liderança preparada interfere diretamente na sustentabilidade do negócio. “Quando essa mediação não acontece de forma consistente, surge um descompasso entre discurso e prática. Valores como colaboração, autonomia e desenvolvimento de pessoas continuam presentes nas narrativas institucionais, mas não orientam as decisões concretas, especialmente aquelas relacionadas a priorização, reconhecimento e avaliação de desempenho”, afirma o executivo.

O peso do líder no engajamento

O impacto do gestor direto na performance é corroborado por dados globais. Estudos da Gallup indicam que até 70% da variação do engajamento de um time depende exclusivamente da atuação do líder imediato. A instituição, reconhecida como referência mundial em gestão de pessoas, reforça que a conduta dos gestores é o fator determinante para a performance e para a saúde das equipes no longo prazo.

No dia a dia operacional, a carência de uma direção clara e o desalinhamento de expectativas resultam em um trabalho fragmentado. Sem prioridades bem estabelecidas, surgem conflitos não resolvidos e mudanças de rota sem critérios definidos, o que reduz a previsibilidade e exige um esforço desproporcional para a execução de tarefas simples. De acordo com Funchal, essa dinâmica desvia a energia das equipes da qualidade técnica para uma tentativa constante de decifrar o que realmente precisa ser feito.

Falsa produtividade e o custo sistêmico

Outro ponto de atenção destacado pelo especialista refere-se aos critérios de performance que acabam sendo reforçados em ambientes de liderança frágil. Sem uma visão crítica sobre o modelo de trabalho, priorizam-se aspectos como a disponibilidade ininterrupta, a rapidez de resposta e o volume bruto de entregas. Em contrapartida, elementos essenciais como a qualidade da decisão, a sustentabilidade do ritmo e o desenvolvimento real dos profissionais ficam em segundo plano.

Embora esse modelo possa gerar picos de produtividade no curto prazo, ele tende a provocar retrabalho, desgaste físico e mental, além de uma perda severa de consistência com o passar do tempo. “Esse conjunto de fatores tende a criar um ciclo: quanto mais o ambiente se desorganiza, maior o esforço individual para compensar, o que aumenta o risco de esgotamento e reduz a sustentabilidade dos resultados. Por isso, o custo da liderança despreparada não é apenas humano ou financeiro, mas sistêmico”, conclui Pablo Funchal.

Os reflexos dessa desorganização estendem-se para a retenção de talentos e a saúde organizacional. Ambientes marcados por alta pressão e pouca clareza aumentam a rotatividade e dificultam a coordenação necessária para entregas de alto valor agregado, tornando o despreparo da liderança um gargalo para o crescimento real das corporações.

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *