*Por Érica Borgonovi.
Cuidar da saúde mental no ambiente de trabalho pode parecer, à primeira vista, algo complexo ou distante da realidade de muitas empresas. Mas, na prática, esse cuidado começa de forma simples e possível.
Com a inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 temos refletido sobre a importância do tema e surge uma pergunta natural: por onde começar?
A resposta não está em grandes projetos lentos ou em soluções apressadas, nada radical. Está na atenção ao cotidiano.
Antes de qualquer ferramenta ou metodologia, é preciso olhar para o ritmo da equipe, para as demandas acumuladas, para a forma como as pessoas se comunicam, para o clima que se estabelece nos dias mais corridos.
Muitas vezes, os sinais já estão ali e apenas não foram nomeados.
Um colaborador mais calado do que o habitual ou uma irritação frequente. Erros que começam a se repetir ou cansaço constante.
Perceber esses movimentos é um primeiro passo importante.
E aqui vale uma reflexão: sua empresa tem espaço para escuta ou apenas para execução?
Criar momentos de escuta não exige estruturas complexas. Pode começar com conversas mais presentes, reuniões menos automáticas e uma abertura real para que as pessoas possam se expressar sem receio.
Outro ponto essencial é a clareza. Ambientes onde as expectativas não estão bem definidas tendem a gerar insegurança e sobrecarga. Quando cada pessoa entende seu papel, suas prioridades e seus limites, o trabalho flui com mais leveza.
Revisar a distribuição de tarefas também faz diferença. Nem sempre a sobrecarga está no volume de trabalho em si, mas na forma como ele está organizado.
Pequenos ajustes aqui trazem grandes impactos e é nesse contexto que a NR-1 ganha relevância. Mais do que uma exigência, ela propõe envolvimento real com um olhar estruturado sobre esses aspectos, ajudando as empresas a identificarem riscos que, muitas vezes, passam despercebidos no dia a dia.
E isso não precisa ser feito sozinho. Contar com apoio especializado pode trazer clareza, organização e direcionamento, especialmente para quem já percebe que algo precisa mudar, mas não sabe exatamente por onde começar.
Comece agora por observar e já propor pequenos movimentos.
Um que sugiro, pois tenho visto gerar bons resultados, é a criação de pequenos espaços de desenvolvimento contínuo dentro das empresas. Iniciativas simples, como quadros com reconhecimento aos destaques do mês e propostas de momentos de leitura e troca de ideias, podem contribuir para ampliar o olhar, melhorar a comunicação e fortalecer o ambiente emocional. Aos poucos, isso se transforma em cultura.
Assim como na leitura — tema que venho trazendo nos últimos artigos em minha coluna “Eu sou o que eu leio!”, aqui mesmo no JVN — a constância faz diferença. Não é sobre fazer muito de uma vez, mas sobre fazer de forma consistente. Cuidar da saúde mental no trabalho não é um evento, é um processo.
E todo processo começa com uma decisão. A decisão de olhar com mais atenção, de ajustar o que for necessário, de reconhecer que pessoas não são apenas parte do negócio, são o próprio negócio.
Pequenos passos, quando sustentados ao longo do tempo, transformam ambientes, fortalecem relações e trazem resultados mais consistentes. Porque, no fim das contas, empresas mais saudáveis não nascem de grandes ações isoladas, nascem de cuidados contínuos, praticados no dia a dia.

Érica Borgonovi é formada em Letras, pós-graduada em Linguística e especialista em linguagem, construção do e-Learning e andragogia. Com ampla experiência como master coach, atuou em projetos de treinamento corporativo em grandes empresas, como Avon Cosméticos e Banco Bradesco. Autora de diversos livros voltados ao desenvolvimento pessoal e profissional, é cofundadora do Instituto Eu Ser, que desenvolve soluções exclusivas para o aprimoramento de pessoas, equipes e empresas. Criadora de um método exclusivo para incentivar o hábito de leitura, Érica se dedica a projetos transformadores que promovem o autodesenvolvimento e o gosto pelos livros, conduzindo clubes nos quais compartilha estratégias práticas para enriquecer a vida pessoal e profissional por meio da literatura.

