A primeira cena do meu ano foi previsível: café ao lado do note, celular vibrando, minha atenção disputada entre as manchetes na tela e as mensagens do wsp. A mistura perfeita (e insana) entre o que é importante e o que é urgente — e, no meio, muito barulho.

Se você empreende, talvez tenha acordado na primeira segunda-feira do ano com a mesma sensação: como tomar boas decisões quando tudo parece se digladiar pela sua atenção? O que fazer quando o cenário geopolítico tensiona, a agenda eleitoral esquenta, os custos não dão trégua e as redes sociais viram palco de ‘tudo ao mesmo tempo agora’?

Eu trabalho com relações públicas (RP), com reputação. E reputação, ao contrário do que às vezes se alardeia, não é espuma: é resultado de escolhas consistentes no tempo. Por isso, começo este ano propondo um movimento simples, prático e — principalmente — humano: respirar, filtrar, priorizar e agir. Sem negar o mundo, mas também sem ceder ao pânico. Com método.

E o método que recomendo cabe numa frase: escolha o que entra. Parece óbvio, mas raramente é praticado. Na rotina, confundimos volume com relevância, barulho com tendência, pressão com prioridade. O segredo está em colocar cada informação no seu devido lugar — e, a partir daí, transformar manchetes em agenda, agenda em execução e execução em reputação.

Como fazer isso? Com três camadas de atenção e um filtro que cabe num guardanapo.

As três camadas de atenção:

  • Camada 1 — Operação e caixa (agora): vendas, entrega, atendimento, fluxo de caixa, equipe. É o que sustenta o dia a dia. Se isso falha, nada mais importa.
  • Camada 2 — Mercado e relacionamento (próximas 12 semanas): fortalecer o relacionamento com clientes-chave, parceiros, fornecedores, comunidade, imprensa local e setorial. Onde a reputação se forma na prática.
  • Camada 3 — Macro de contexto (fundo): sinal geopolítico, eleitoral e regulatório que muda preço, prazo ou risco de forma concreta. O macro não manda no seu plano, mas altera a maré — e você deve estar atento para ajustar as velas no tempo certo.

Conheça então o SERENO – um filtro que, nas avalanches de notícias e opiniões que nos bombardeiam de todos os lados diariamente, nos ajuda a decidir o que entra e o que fica de fora. Funciona assim:

  • S de Sinal: é um fato ou é opinião? Há dados verificáveis, fontes confiáveis, impacto observável?
  • E de Exposição: qual o grau de exposição do meu negócio a esse tema? Alta, média, baixa?
  • R de Relevância: se isso se materializar, muda preço, prazo, risco ou relacionamento? Como?
  • E de Evidência: há tendência (três indícios consistentes ao longo do tempo) ou é um evento isolado?
  • N de Next step: qual a menor ação útil que posso tomar nas próximas 48 horas?
  • O de Owner: quem é o responsável por observar e reportar esse tema internamente?

Repare: em cinco minutos, você sai do vórtice da timeline e cai numa conversa adulta com o seu negócio. O SERENO não apaga incêndio — ele evita incêndios desnecessários. Ele não desumaniza — ele reduz ansiedade porque dá um próximo passo claro.

Quando falar, quando calar (e como) – porque sim, nós somos inundados por cortes e memes o tempo todo em nossas redes e pode bater aquela vontade irresistível de reagir, não é? Mas segura o ímpeto Zezé de Camargo aí, que eu te explico porquê.

Em comunicação, silêncio também é estratégia — desde que seja um silêncio produtivo. Alguns critérios que podem ajudar:

  • Falar quando: sua audiência legítima espera orientação; há impacto real sobre preço, prazo, risco ou serviço; você tem informação confiável e operacional para compartilhar; o silêncio aumenta incerteza ou desgaste.
  • Calar (por ora) quando: o tema ainda é especulativo; sua exposição é baixa; você está colhendo evidências; falar agora cria obrigação de atualizar a cada rumor.
  • Como falar: curto, factual, empático, útil. Contexto mínimo, decisão tomada, próximo passo e contato. A boa nota não compete com a manchete; ela serve o seu público.

O antídoto contra a ansiedade não é “otimismo”: é condição de contorno. Nomeie seus gatilhos. Eles libertam foco.

O papel de RP nesse momento RP é a disciplina que organiza conversas que importam. É escuta, coerência e utilidade. Em tempos barulhentos, RP faz três coisas muito bem:

  • Tradução: transforma jargão e ruído em linguagem que o seu cliente entende.
  • Curadoria: decide o que entra no seu ecossistema e o que fica do lado de fora.
  • Confiança: mantém promessas possíveis e corrige rápido quando algo falha.

Reputação não nasce de uma campanha; ela se acumula quando a sua prática repete a sua promessa.

Se a promessa é serviço confiável, a sua melhor peça de comunicação pode ser um e‑mail que chega antes do cliente perguntar.

Se a promessa é preço justo, a sua melhor ação pode ser explicar como formou esse preço.

Se a promessa é comunidade, seu maior ativo é a sala aberta de feedback onde você escuta sem se defender.

O que eu faria amanhã:

  • Escreveria, à mão, as três camadas de atenção do meu negócio e colaria na parede da operação.
  • Montaria o meu SERENO de bolso com dois exemplos práticos da semana.
  • Agendaria 10 conversas com clientes antes de mexer em qualquer campanha.

E respiraria. Porque nada disso funciona sem o corpo presente. Estratégia é também higiene mental: foco é uma decisão.

Você não controla o barulho do mundo — mas controla o que atravessa a sua porta. E é aí que sua reputação nasce, cresce e protege o negócio quando a maré vira. Em 2026, escolha o que entra. Filtre com calma, priorize com método, comunique com respeito. O resto é execução — e generosidade em compartilhar aprendizados pelo caminho.

Se o ano começou barulhento, que o seu planejamento comece sereno. Menos ansiedade. Mais clareza. O suficiente de informação para agir, nunca para paralisar. O checklist está aí para ancorar. O movimento, como sempre, depende de você.

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